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domingo, 28 de março de 2010

Artigo de Luiz Fernando Veríssimo sobre o BBB

A FALÊNCIA MORAL DO BBB




Já imaginaram quanto poderia ser feito com essa quantia se fosse dedicada a programas de inclusão social, moradia, alimentação, ensino e saúde de muitos brasileiros? (Poderia ser feito mais de 520 casas populares; ou comprar mais de 5.000 computadores )



Que me perdoem os ávidos telespectadores do Big Brother Brasil (BBB),produzido e organizado pela nossa distinta Rede Globo, mas conseguimos chegar ao fundo do poço. A décima (está indo longe) edição do BBB é uma síntese do que há de pior na TV brasileira.

Chega a ser difícil encontrar as palavras adequadas para qualificar tamanho atentado à nossa modesta inteligência.
Dizem que Roma, um dos maiores impérios que o mundo conheceu, teve seu fim marcado pela depravação dos valores morais do seu povo, principalmente pela banalização do sexo. O BBB 10 é a pura e suprema banalização do sexo. 

Impossível assistir ver este programa ao lado dos filhos. Gays, lésbicas, heteros... todos na mesma casa, a casa dos “heróis”, como são chamados por Pedro Bial. 

Não tenho nada contra gays, acho que cada um faz da vida o que quer, mas sou contra safadeza ao vivo na TV, seja entre homossexuais ou heterosexuais. 

O BBB 10 é a realidade em busca do IBOPE.
Veja como Pedro Bial tratou os participantes do BBB 10. Ele prometeu um “zoológico humano divertido” . Não sei se será divertido, mas parece bem variado na sua mistura de clichês e figuras típicas.

Se entendi corretamente as apresentações, são 15 os “animais” do“zoológico”: o judeu tarado, o gay afeminado, a dentista gostosa, o negro com suingue, a nerd tímida, a gostosa com bundão, a “não sou piranha mas não sou santa”, o modelo Mr. Maringá, a lésbica convicta, a DJ intelectual, o carioca marrento, o maquiador drag-queen e a PM que gosta de apanhar (essa é para acabar!!!).

Pergunto-me, por exemplo, como um jornalista, documentarista e escritor como Pedro Bial que, faça-se justiça, cobriu a Queda do Muro de Berlim, se submete a ser apresentador de um programa desse nível.

Em um e-mail que recebi há pouco tempo, Bial escreve maravilhosamente bem sobre a perda do humorista Bussunda referindo-se à pena de se morrer tão cedo. Eu gostaria de perguntar se ele não pensa que esse programa é a morte da cultura, de valores e princípios, da moral, da
ética e da dignidade.

Outro dia, durante o intervalo de uma programação da Globo, um outro repórter acéfalo do BBB disse que, para ganhar o prêmio de um milhão e meio de reais, um Big Brother tem um caminho árduo pela frente, chamando-os de heróis. Caminho árduo? Heróis? São esses nossos
exemplos de heróis?

Caminho árduo para mim é aquele percorrido por milhões de brasileiros, profissionais da saúde, professores da rede pública (aliás, todos os professores), carteiros, lixeiros e tantos outros trabalhadores incansáveis que, diariamente, passam horas exercendo suas funções com dedicação, competência e amor e quase sempre são mal remunerados.
Heróis são milhares de brasileiros que sequer tem um prato de comida por dia e um colchão decente para dormir, e conseguem sobreviver a isso todo santo dia.

Heróis são crianças e adultos que lutam contra doenças complicadíssimas porque não tiveram chance de ter uma vida mais saudável e digna.

Heróis são inúmeras pessoas, entidades sociais e beneficentes, ONGs, voluntários, igrejas e hospitais que se dedicam ao cuidado de carentes, doentes e necessitados (vamos lembrar de nossa eterna heroína Zilda Arns).
Heróis são aqueles que, apesar de ganharem um salário mínimo, pagam suas contas, restando apenas dezesseis reais para alimentação, como mostrado em outra reportagem apresentada meses atrás pela própria Rede Globo.

O Big Brother Brasil não é um programa cultural, nem educativo, não acrescenta informações e conhecimentos intelectuais aos telespectadores, nem aos participantes, e não há qualquer outro estímulo como, por exemplo, o incentivo ao esporte, à música, à criatividade ou ao ensino
de conceitos como valor, ética, trabalho e moral. 

São apenas pessoas que se prestam a comer, beber, tomar sol, fofocar, dormir e agir estupidamente para que, ao final do programa, o “escolhido” receba um milhão e meio de reais. E ai vem algum psicólogo de vanguarda e me diz
que o BBB ajuda a "entender o comportamento humano". Ah, tenha dó!!!

Veja o que está por de tra$$$$$$$$$ $$$$$$$ do BBB: José Neumani da Rádio Jovem Pan, fez um cálculo de que se vinte e nove milhões de pessoas ligarem a cada paredão, com o custo da ligação a trinta centavos, a Rede Globo e a Telefônica arrecadam oito milhões e setecentos mil reais. Eu vou repetir: oito milhões e setecentos mil reais a cada paredão.

Já imaginaram quanto poderia ser feito com essa quantia se fosse dedicada a programas de inclusão social, moradia, alimentação, ensino e saúde de muitos brasileiros?
(Poderia ser feito mais de 520 casas populares; ou comprar mais de 5.000 computadores )

Essas palavras não são de revolta ou protesto, mas de vergonha e indignação, por ver tamanha aberração ter milhões de telespectadores.
Em vez de assistir ao BBB, que tal ler um livro, um poema de Mário Quintana ou de Neruda ou qualquer outra coisa..., ir ao cinema..., estudar... , ouvir boa música..., cuidar das flores e jardins... ,telefonar para um amigo... , visitar os avós... , pescar..., brincar com as crianças... , namorar... ou simplesmente dormir.

sábado, 19 de janeiro de 2008

Eles são da geração pós-TV e aprendem diferente de nós - II parte



Gladis Maia
O que a música nos oferece é a aguda
tomada de consciência da morte dos
conteúdos. G. Berger.

Entre os pós-gutembergueanos - os que se expressam através da linguagem audiovisual e não da escrita - fala-se mais do que se escreve. Vê-se mais do que se lê e sente-se antes de compreender. Enquanto um livro é redigido com distanciamento, um script é composto no calor da criação. Isto é uma diferença básica.
Na linguagem audiovisual os ruídos lançam o ouvinte dentro do lado concreto de uma situação, a música cria um clima, a imagem, ao mesmo tempo que fixa, leva para longe. A palavra estrutura o discurso. Nesta linguagem a estética e a capacidade de empatia são fundamentais, mais do que a reflexão. Ela apela primeiro aos sentidos, depois à inteligência. A linguagem não pode ser rebuscada, literária, tem que ser popular, dialogada, para aproximar.
Acompanhar as mídias é viver no drama: das notícias, dos filmes policiais, dos jogos inacabados e das dramatizações.É o império da anormalidade, do sensacionalismo! Frenesi de pressa e consumo desenfreado de neurônios. No telejornalismo, é puro drama, ação. Uma ação que se alimenta de acontecimentos cuja força é aumentada, ou, de simples pormenores que conseguem se tornar chocantes e ocupar todo o campo da consciência.
A composição audiovisual não se desenrola como uma história regular de trás para frente. Nem é didática. Não se apresenta como uma divisão da realidade, em partes articuladas, com lógica aristotélica. Não é sintética, partindo de um visão de conjunto para mostrar ou analisar, sucessivamente, os pormenores. Ela se apresenta em flashes, aparentemente sem ordem, num fundo comum. As imagens parecem-nos lançadas ao rosto. Mas sob essa aparente desordem, pode reinar uma rigorosa ordem subjetiva.
As queixas dos pais, dos professores e dos especialistas entrevistados na pesquisa de Babin e Kouloumdjian, já citda na I parte deste artigo, não deixam de ser similares às apresentadas pelos educadores brasileiros, sobre seus alunos. Falam da dificuldade de compreensão de vocabulário; do uso de linguagem oral nas redações; de frases tipo slogan ; que a página escrita não tem consistência, nem permanência, como se fora um programa de televisão; não consideram mais a ortografia, escrevendo como se pronunciam as palavras; só conseguem guardar da dissertação uma palavra-chave, uma informação; textos com abreviações estranhíssimas, repetições.
Evidentemente que contribuem para isso não só a TV, o cinema, mas a falta de leitura, a carência do meio social, o não uso de dicionário, apontam os educadores. Os jovens de hoje em dia são essencialmente visuais, eles lêem o que podem visualizar, e se desinteressam por livros demasiados conceituais. Se eles não conseguirem imaginar as idéias, não compreendem o texto. Da mesma forma, a fala é cada vez mais sensorial e visual.
A geração da televisão exprime o que vê e ouve, da maneira como vê e ouve. Há muita dificuldade para exprimirem idéias que não tenham raiz sensorial, ressonância emocional ou contorno visual.
Os autores estão cobertos de razão, quando dizem que o parece ser sem pé nem cabeça é assim, considerando-se a organização linear do discurso. Na realidade, na linguagem audiovisual desses jovens o que conta é a visão do todo, e não as ligações entre as partes desse todo. As distinções e as articulações do discurso desaparecem em benefício de uma imagem global. Há o predomínio da visão subjetiva e global.
Nesse tipo de linguagem prefere-se um bom estímulo inicial a uma boa explicação, mas a correspondência, a prova do raciocínio vem depois. O que comanda as conexões numa conversa, por exemplo, é a preocupação da relação com o grupo, ou com o meio, mais do que com a lógica interna do discurso.
A própria imagem e a experiência das relações é mais importante do que o discurso. É essa a ordem que preside as seqüências dos telejornais. Se vai de notícia a notícia, sem lógica aparente, e é o telespectador que liga os pedaços, se pelo menos o conjunto lhe deu alguma experiência unificada. Todas essas influências fazem com que os jovens sintam a necessidade de uma outra linguagem, mais livre, mais imaginativa, mais rápida.
Como guardar o essencial da aquisição de Gutemberg – a escrita - e, ao mesmo tempo, assumir os novos modos e valores da linguagem audiovisual? É este o desafio que a sociedade atual, e, em particular a Educação, precisa aceitar! Se os jovens forem abandonados à sua linguagem - com a força interna de desordem e de desagregação que carrega consigo – o assassinato das línguas nacionais cultas ocorrerá em breve, muito em breve, por este planeta à fora. Porém, recolocá-los dentro do discurso literário tradicional, com o padrão culto de linguagem – em raríssimas exceções – será impossível.
Conforme os autores, com os quais concordo na íntegra, é necessário que se exija, pelo menos na escola, às formas de linguagem para as quais os jovens têm, ou tem demonstrado atualmente um talento quase espontâneo, uma certa linguagem publicitária, digamos. É imprescindível que estejamos abertos à inovação e mais permissivos à transição, pois com o passar dos tempos o novo reinará e já será velho novamente...



terça-feira, 8 de janeiro de 2008

O DISCURSO DA EDUCAÇÃO INCLUSIVA LONGE DA TV TORNA-SE INSUFICIENTE

Gladis Maia
Até bem pouco tempo dizia-se que a arte
imita a vida.. E quanto ao 11 de setembro que repetiu uma aventura hollywdiana?
A TV se inseriu de tal forma na vida cotidiana que hoje é quase impossível pensar os eventos sem a sua presença. Ela mudou, por exemplo, substancialmente a prática dos esportes. Atualmente, a própria televisão participa da organização e administração dos eventos, transformando competições em espetáculos televisivos. Ela privilegiou o espaço profissional em detrimento do atletismo amador e converteu os atletas em estrelas. Acontecimentos políticos, cerimônias oficiais e até mesmo atentados terroristas são concebidos, antes de tudo, como encenações para a mídia.
Os eventos não acontecem mais, via de regra, por conta própria, eles pressupõem a mediação da TV e são forjados em função dessa mediação, quando não são produzidos diretamente pelas redes de TV ou sob sua influência direta. A luta política passa hoje necessariamente por dentro da enunciação televisual. Ficar de fora, criticando aristocraticamente os seus mecanismos de alienação, é um erro estratégico que pode resultar em irresponsabilidade social. Se a escola não for capaz de compreender isso, estará se condenando ao limbo.
Fazendo-se um rápido retrospecto da história do século passado, é notável que os mais influentes líderes de massa foram - antes de tudo - excelentes oradores e se davam muito bem com os alto-falantes das praças públicas ou com os microfones do rádio, assim como: Lenin, Hitler, Mussolini, Churchill, De Gaulle, Perón, Luther King, Fidel Castro e até mesmo Leonel Brizola. Todos se encaixavam nessa classificação.
A partir dos anos 60, porém, com a TV ganhando cada vez maior importância como veículo de massa, tornou-se difícil acrescentar novos nomes à lista dos líderes carismáticos de grande apelo popular. Acredito inclusive que Brizola não tenha sido eleito para presidente porque não dominava este veículo de comunicação, estendia-se por demais em suas falas, um dos defeitos cruciais no vídeo. Se não é assim, a que você atribuiria a eleição de um ator para a presidência de um dos países mais importantes do planeta? Eu aposto na sua performance televisiva!
Diante disto, considerando-se, entre outros temas, o fato da política passar necessariamente pela TV – enquanto nesse meio tempo os políticos tornam-se cada vez mais experts, nas formas de se comportarem em relação a essa mídia – é necessário que a escola tome a si o papel de formar telespectadores críticos, pois só assim a TV não será mais um instrumento de dominação de muitos, por uns poucos.
O poder da mídia reside também em outro gênero de programa que são os videoclipes, que soberanamente vem agradando aos jovens. Ele se impôs como uma nova forma de expressão dentro do universo do vídeo e rapidamente ganhou espaço dentro e fora da televisão, conquistando um amplo contingente de adeptos e provocando uma pequena revolução no interior da televisão.
Concorde-se ou não, a verdade é que torna-se cada vez mais difícil fingir ignorá-los ou supor que se trata apenas de um fenômeno de moda. Talvez resida neste tipo de mensagem a expressão mais acabada da modernidade – com seu poder de síntese e sua conseqüente economia expressiva – embora resulte num produto que dificilmente a inteligência tradicional entenda ou engula.
O estranhamento maior está certamente relacionado com ao fato do videoclipe poder dispensar inteiramente o suporte narrativo, coisa com a qual o seu público já está preparado para aceitar. As imagens podem ser escolhidas sem nenhum significado imediato, sem qualquer denotação direta, sem referência alguma, no sentido fotográfico do termo, harmônico com o da música.
O que está presente na maioria dos clipes é: uma forma não-narrativa, não linear. O que importa é menos a intenção de se contar uma história e mais o desejo de se passar uma overdose de sensações, através de informações não-relacionadas, sons e imagens, até mesmo desconexas.
Não residiria no videoclipe - a ser assistido, a ser produzido - um campo próspero de estudo para a escola trabalhar, além de conteúdos científicos, as singularidades dos seus sujeitos, suas diferentes sensações, emoções, valores, etc.? Esta produção de vídeo não poderia servir de elo entre toda a comunidade escolar, envolvendo professores, alunos, funcionários, especialistas, pais, enfim toda a comunidade escolar? Seria a Escola indo para além dos seus muros, ao encontro da sociedade onde se insere cada uma delas!
Não caberiam campanhas a serem deflagradas na comunidade escolar – interna e externa - através de clipes, e, em especial, com o mote do valor da fraternidade, da equanimidade de direitos, do respeito aos semelhantes, do valor da amizade e tantos outros sentimentos, temas e ações que resultam numa escola e numa , conseqüentemente, sociedade inclusiva?
Diante do contexto criado pelas novas tecnologias da comunicação e da informação, o discurso da educação não consegue isoladamente posicionar-se, torna-se insuficiente. Por outro lado, diante dessas novas mediações, a educação e a Comunicação não podem também ser pensáveis como atores independentes e isolados deste novo ecossistema de comunicação educativa.
Porém a simples introdução dos meios e das tecnologias na escola, pode ser a forma mais enganosa de ocultar seus problemas de fundo, sob a égide da modernização tecnológica. O desafio é como inserir na escola um ecossistema comunicativo que contemple ao mesmo tempo: experiências culturais heterogêneas, o entorno das novas tecnologias da informação e da comunicação, além de configurar o espaço educacional como um lugar onde o processo de aprendizagem conserve seu encanto. Voltaremos ao assunto!

domingo, 6 de janeiro de 2008

Aos 12 anos uma criança já assistiu em torno de 8 mil assassinatos na TV



Gladis Maia


A violência compensa, parece dizer a mídia [...]. As crianças deveriam aprender na escola a lidar com a violência da mídia e a refletir sobre ela porque, muitas vezes, elas vêem a realidade como um espelho na televisão.
Regina Zappa, in J.B. 31/05/98.


Uma parcela significativa de jovens – de todas as classes sociais e níveis culturais – tem surpreendido a humanidade, em diversas partes do mundo, com seu alto nível de agressividade e violência. Especialmente quando se trata de filhos da classe alta e, mais ainda, quando a violência é praticada contra um membro da própria família ou gratuita, atingindo inocentes, sejam eles crianças em salas de aula ou mendigos dormindo nas ruas.
Geralmente – para que o debate não se estenda às salas de aulas, à mídia, às famílias e à sociedade como um todo – simplifica-se o problema através de meia dúzia de palavras proferidas por alguns especialistas, tais quais policiais e psiquiatras, que atribuem estes comportamentos doentios ao uso de drogas.
As pesquisas estão aí indicando que, geração após geração, em todas as épocas - muitos jovens fazem uma incursão – exclusiva, moderada, média ou profunda – pelo mundo dos entorpecentes. Mudam as espécies e gêneros, tornam-se liberados ou não, dependendo da cultura, mas o mundo continua a produzir jovens que: ou abominam ou sentem-se atraídos pelo proibido. E, não é novidade para ninguém que a maioria deles, que utiliza este expediente deflagrador de violência, lícita ou ilicitamente, não sai por aí esfaqueando ou dando tiros em pessoas, com alvo premeditado ou a esmo.
À luz da Psicologia, os jovens que cometem estes delitos bárbaros, e outros mais leves, são portadores de transtorno de personalidade anti-social. A Psiquiatria nos diz ainda que estes sociopatas não são doentes mentais, até porque não há remédio, terapia e perspectiva de cura para eles.
Mais triste é que a medicina só aponte tardiamente o diagnóstico, sempre após a consecução de um crime... Mas, ninguém nasce com este desvio de personalidade - ou caráter, como querem algumas teorias – mesmo porque a personalidade é formada ao longo do percurso da vida do sujeito. É de pequenino que se torce o pepino, apregoa a sabedoria popular, por vezes mais sábia e sempre mais experiente do que a livresca.
Sucintamente podemos dizer que a personalidade é a organização relativamente estável das disposições motivacionais de uma pessoa, que se formam pela interação entre seus impulsos biológicos e o ambiente social e físico. Reúne atributos cognitivos e físicos, mas refere-se geralmente a traços afetivos, sentimentos, atitudes, complexos mecanismos inconscientes, interesses e ideais que determinam comportamentos e pensamentos característicos - ou distintivos - do indivíduo.
Partindo destas premissas, fica evidente que temos, enquanto pais e professores, muita responsabilidade na formação da personalidade das crianças. Quantos já não ouviram, leram ou estudaram sobre a falta de limites como promovedora de desvios de conduta e de mau caráter ?
Outra grande aliada na educação é a TV, que passa a maior parte do dia na companhia de muitas de nossas crianças. Esta exposição demasiada e indiscriminada à influência da TV pode causar, entre outras seqüelas, o amadurecimento precoce por causa da banalização da violência e da absorção imediata do universo de informações que chegam embaladas de formas diversas, em programas variados, num cardápio de assuntos não tão múltiplos, recheados principalmente de sexo e violência.
O mau cheiro da violência que exala da TV pode nos atingir - e de verdade - especialmente quando se é jovem. São imagens que passam a interferir na construção da personalidade, do caráter e na maneira do público infantil se ver e entender o mundo à sua volta. Necessitados de modelos para imitar eles os têm a fartar na telinha sedutora.
Enquanto as leis que regem as concessões das emissoras de televisão continuarem dando o direito - à meia dúzia de iluminados - de escolher o que deve ir ao ar, pelo único critério da audiência, sem que haja um Conselho dos MCM , que represente um consenso entre estudiosos e a população, que estabeleça o que é saudável, o que é cultural, o que é educativo - entre outros atributos - para ser veiculado como programação, reinará o império da baixaria, da degradação, da violência, da grosseria, do grotesco, da sexualidade reduzida à pornografia, entre outros malefícios visuais e auditivos.
É preciso – não já sem tempo e mais do que nunca - que a escola tome a si a responsabilidade de educar a criança para o meio televisivo, já que os pais, em geral, não têm conseguido e que os intelectuais brasileiros estão muito preocupados em não interferir na briga entre Governo e concessionários, com medo de serem taxados de ressuscitadores da censura.
Embora no artigo 76 do Estatuto da Criança e do Adolescente reze que “As emissoras de rádio e televisão somente exibirão, no horário recomendado para o público infantil e juvenil, programas com finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas”, todos sabemos que isto não passa de balela.
Mesmo porque alguns programas ditos infantis deixam muito a desejar. E também porque todos sabemos que quem decide o que é um programa para criança – salvo honrosas exceções, parabéns aos pais responsáveis – são elas próprias. As dez atrações mais vistas por elas e pelos adolescentes são todas destinadas aos adultos. As crianças assistem praticamente a tudo e - de alguma forma - estão elaborando o que assistem.
Uma sociedade não pode ficar esperando que o bom senso inspire os diretores de TV que estão mais preocupados é em vender, através da publicidade que os sustenta, nem que para isto auxiliem na ‘formação’ de bandidos e imbecilizem a nação. Os meios de comunicação de massa já são o 4º poder, não há dúvida. Através deles podemos fazer a guerra ou a paz. As sociedades são dirigidas pela comunicação de massa que tiverem... Acordem!

domingo, 30 de dezembro de 2007

MÍDIA QUE TE QUERO ABERTA AOS EXCLUÍDOS


Gladis Maia

... o jornalista só não pode perder de vista sua função social no exercício da profissão, mesmo quando há pouquíssimo espaço para exercê-la. Cláudia Werneck in Ninguém mais vai ser bonzinho na sociedade inclusiva

São vários os motivos pelos quais os jornalistas não trabalham necessariamente com os temas que gostariam, seja na TV, no rádio, no jornal, na revista, na assessoria de comunicação... Dentre eles podemos destacar a censura, como o mais significativo entrave para a questão.
A censura econômica, que ocorre quando os donos dos meios de comunicação ou um patrocinador – ou mesmo todos – não tem interesse pelo assunto, sendo a desculpa que o desinteresse por ele é do público. Censura ideológica, quando a leitura que o comunicador faz do mundo, incluindo aí seu posicionamento político, não vai ao encontro - pelo contrário, vai de encontro – de um ou dos dois segmentos sociais anteriores, e/ou ainda: de algum político influente – ou mesmo um grupo deles - com seus lobbies peculiares à classe, que também auxilia no cerceamento da palavra do comunicador e dos grupos minoritários representados por ele.
Mas, se necessário, drible-se esta malfadada censura que existe, mesmo que não oficialmente, se assim não se fizer o feitiço vira contra o feiticeiro e acaba se instalando no fazer jornalístico a autocensura, que é a pior das suas modalidades.
O jornalista, especialmente os mais jovens, precisam conscientizar-se do seu papel revolucionário que é o de dar vez e voz aos oprimidos, ainda que somente nas entrelinhas, enquanto a mídia não se popularizar, ou seja, servir mais amiúde ao povo e não ao poder, constituído ou não.
Ilustrando a tese do papel social do jornalismo, resumo abaixo a história que serviu de pauta para uma série de reportagens do jornalista Rogério Verzignasse, do octogenário Correio Popular, jornal de Campinas, São Paulo, realizadas no ano de 1994.
As matérias versavam sobre o fato da mãe de Alessandro Augusto Pimentel não conseguir inscrevê-lo para a crisma, que se realizaria com o arcebispo metropolitano de Campinas, D. Gilberto Pereira Lopes, no sábado seguinte, com dezenas de adolescentes, inclusive sua irmã, de 15 anos.
Alessandro, tinha então 14 anos, pesava somente 27 quilos e era portador de atrofia cortical e cerebelar, vivendo o tempo todo brincando, acomodado em um carrinho de bebê. Para D. Zilda – que dizia que apesar do aparente desligamento do mundo o menino reconhecia seus familiares e demonstrava tristeza, alegria ou dor – a crisma era muito importante e por não se conformar com a negativa da Igreja que alegava que no direito canônico rezava que o sacramento só deve ser ministrado às pessoas que fazem uso absoluto da razão, procurou o jornal onde foi ouvida.
Num dos textos da reportagem de capa, ARCEBISPO NEGA CRISMA À DEFICIENTE, Verzignasse diz: Filho de Deus. O Alessandro só tem uma flauta. Plástica, verde. O menino não fala, não lê. Nem poderia testemunhar aos quatro ventos as maravilhas do ministério cristão. Faltam-lhe recursos físicos e a razão, que fazem parte dos seres humanos, como fazem crer nossos clérigos, imagem e semelhança de Deus perfeito.
Ah, mas como a Igreja se engana. O padre José Luis e o arcebispo D. Gilberto, decerto por falta de tempo, não passaram pela residência da família Pimentel. Eles perderam a chance de ver, nos olhinhos azuis de Alessandro, o brilho de quem testemunha o amor. Eles não viram que o menino tem capacidade de sorrir a cada afago da mamãe Zilda, de se alegrar quando ouve a voz da irmã Letícia, de se sentir confortado nos braços da avó Evanilza.
Não, decerto o padre José Luis e o D. Gilberto não viveram a emoção de ouvir o som de uma flauta tocada por aquele pequeno músico de mãos limpas e boca pura. Nossos religiosos não perceberam que o Alessandro não precisa dos serviços da Igreja . Ele vive, e isso já é razão suficiente para atestar a Criação.
A vida supera qualquer das leis que nossos clérigos literatos, por uma razão ou por outra, incluíram nas páginas dos manuais religiosos. Ainda assim, seria impossível confortar a família? Esse direito canônico é assim tão rígido, a ponto de proibir padres e bispos de, caridosamente, crismarem um deficiente para a alegria da comunidade? A situação, tão complicada, talvez requeira uma olhadela na sábia e sagrada colocação de São Paulo: ‘Ainda que eu falasse a língua dos anjos e dos homens, sem caridade eu nada seria.’
A polêmica gerada com a matéria foi tamanha que uma rádio de Campinas colocou um ramal telefônIco ao dispor da comunidade para que se pronunciasse a respeito. Seguiram-se as demais reportagens, por três dias seguintes: DRAMA DE ALESSANDRO COMOVE CAMPINAS; ARCEBISPO DIZ QUE CASO ESTÁ SOB ANÁLISE; ARCEBISPO RECUA E DECIDE CRISMAR DEFICIENTE.
Graças a Deus, houve um final feliz! A família de Alessandro, a mídia e a opinião pública conseguiram crismar Alessandro, coincidentemente – nas minhas concepções não existem coincidências, chamo a isso Providência Divina - no dia 3 de dezembro, data dedicada pela ONU às pessoas com deficiências. O gesto da crisma não durou mais do que dez segundos, mas simbolizou uma vitória do poder da mídia quando repórteres e editores de um jornal assumem o papel transformador que estão aptos a desempenharem.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

A tv nossa de cada dia: mau caratismo e charlatanice, é isto que queremos para nossas crianças?


Gladis Maia
[...] Se no efeito placebo, o paciente abre as portas de seu psiquismo pela fé que tem no poder do tratamento, na experiência televisiva o espectador deixa aberta as suas por ingenuidade e desconhecimento do poder socializador do meio [...] os dois casos têm em comum o fato de que produzem a maior parte de seus efeitos desde as emoções e desde a burla da consciência e da racionalidade. [...] Joan Ferrés in Televisão Subliminar.

A TV – que dia a dia mais se transforma na cara da globalização e traz consigo o avanço da tecnologia da comunicação – vem encantando e gerando legiões de seres mediatizados, à sua maneira. Esta enorme força que traz nas entranhas poderia servir à paz e à fraternidade entre os homens. Poderia assumir um compromisso com a cidadania e sustentar para hoje, amanhã e sempre a democracia. Poderia incentivar a solidariedade, a liberdade, a igualdade de direitos, o respeito à divergência e à singularidade. Poderia promover a consciência nos homens e a compreensão entre os povos, através do conhecimento de - e respeito a - outras culturas, além é claro do seu próprio contexto cultural.
A programação – especialmente a chamada infantil – deveria não apenas divertir a criança, mas ao mesmo tempo, estimular o seu desenvolvimento espiritual e social, em todas as suas possibilidades de desdobramento. Mas não é o que temos assistido! Minhas elucubrações são ainda um sonho a perseguirmos... Sob o manto roto e desbotado do assistencialismo barato ou em reportagens duvidosas e bizarras de alguns programas - como os do Ratinho e do Silvio Santos – e às vezes até nos telejornais - a grande lição é o sensacionalismo travestido de pieguice.
Quem pode passar impune pelos bate-bocas de casais, famílias, de travestis, de vizinhos? Quem pode passar impune pela nudez total sem contexto algum para justificá-la? Quem pode passar impune pelas anomalias - as mais variadas - mostradas em shows, expondo pessoas simples ao vexame público. São cenas - não raras vezes - forjadas de flagrantes de adultério, falas e músicas de conteúdo vulgar, dando um tom apoteótico ao conteúdo nefasto...O cúmulo da miséria moral é explorar a miséria alheia, habilidade na qual os apresentadores de tais programas, entre outros, são doutores.
Outra grande vedete da televisão brasileira é o crime! Quem não lembra daqueles 42 minutos de entrevista com o maníaco do parque, que confessou ter estuprado e matado dez mulheres em São Paulo? A Rede Globo, naquela ocasião, como em muitíssimas outras, se superou, dando um tratamento dramatúrgico à matéria, espetacularizando a notícia...
Nos programas de auditório a tônica são os rebolados e as danças eróticas! Mas o pós-graduação da sexualidade barata fica por conta dos programas infantis, onde as crianças imitam seus ídolos tipo as tiazinhas e feiticeiras e suas coreografias como as inesquecíveis danças da garrafa e tcham... Lembram? E o pior é que: muitos pais e professores acham ‘a coisa mais querida’, por que elas fazem ‘direitinho’...
E agora a TV virou um enorme buraco de fechadura, escancarado – liberando e até oficializando o que Psicologia sempre tratou como desvio de sexualidade: os voyeurs de plantão. São criaturas que assistem, impavidamente, ou se dando ao luxo de agir de forma participativa: via telefone ou e-mail - da bagaceirização do ser humano, nos Big Brothers da vida ... Classifico tal programação como o império da cretinice, da falta de elegância, da falta de ética, da falta de hombridade, para não enumerar muitos outros atributos! Ali, exposto, 24 h do dia, para qualquer espectador ver-se e espelhar-se! Aulas práticas ao dispor da criançada que aprende como o ser humano não deve ser.
Infelizmente os pais – novamente - até acham graça das opiniões das crianças a respeito, pois elas prestam muita mais atenção do que os adultos, ao desenrolar das intrigas que se estabelecem no lar doce lar televisivo do que eles próprios... Se não sabem, pasmem, o maior número de e-mails enviados para os participantes desse programa marca-diabo são delas!
Eu me pergunto é porque não dão um trabalho, um projeto sadio e útil para aquelas criaturas recheadas de mesmice e mau caratismo executarem durante a meteórica estada na celebridade? É claro que não poderia ser muito difícil, pois a especialidade dos hospedados está mais para a sociopatia, onde o nível de inteligência até existe, mas é embotado para o bem, pois sói acontecer na maldade, visando prejudicar os outros ...
E ainda apregoam que a TV e você tem tudo a ver, uma relação próxima tal qual um caso de amor... Então tá! Num país em que dois terços da população é afro-descendente e outros tantos milhares são pobres, analfabetos e lutam pela sobrevivência com dignidade, onde está este espelho?
Onde se reflete a nossa negritude, a nossa miséria, a nossa ignorância e a honestidade que reinam entre os brasileiros? Qual é a identidade nacional apresentada pela TV? Nas novelas, por exemplo, a maioria das famílias são compostas por brancos, ricos e de péssimo caráter?! Portanto, se somos pobres, negros, não somos bandidos, não gostamos de rebolar, e, se a TV que a gente vê se parece conosco, logo temos que concluir que não existimos, não é?
Fica a pergunta:considerando-se que os programas de adultos são os mais assistidos pelas crianças, raciocinem comigo para aonde estamos nos dirigindo, num país onde 90% dos lares têm pelo menos um aparelho de TV, e que, na maioria destes lares é ela que impera soberana no lazer, nas informações do que vai pelo mundo e na formação de um número elevado de crianças que assistem televisão, em média, três horas diárias, acarinhados pela babá eletrônica?

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

O real ou virtual na telinha, eis a questão a ser vista por pais e professores da garotada!


Gladis Maia


...a fraternidade humana, o amor pelo outro, a comunhão, enfim a superação do egoísmo, o desabrochar da vida pessoal na vida coletiva não são ainda senão mitos, a única cultura é a de massas. Edgar Morin.

Pais e professores não devem se iludir a respeito da TV - especialmente em tratando-se da educação de crianças e jovens – enquanto canal de comunicação sócio-cultural. Ela encontra-se a serviço do sistema social em que se localiza. Sua produção baseia-se na doutrina social, ou na ideologia do sistema, o que implica em que ela não seja posta em questão nunca. No Brasil, inserida numa sociedade de capitalismo dependente - terceiro-mundista e organizada com base em princípios de liberdade de pensamento, expressão e crença, assegurados pela Constituição - a TV vem sendo orientada pela ética capitalista, visando antes, e, acima de tudo, o lucro, a partir do qual tudo se justifica. Por isso veicula - lepidamente, ao longo de toda a sua transmissão - valores e princípios da ética capitalista, tais como: o individualismo, a competição, o materialismo, virtuosamente concretizados nas cenas dos comerciais, novelas ou telejornais.

Até há pouco tempo em nosso país considerava-se a comunicação como sinônimo de Showmanship, ou seja, um veículo especialista na habilidade para manejar as emoções da massa. Todos sabemos que a cultura de massa leva modelos culturais a todos os domínios: às relações amorosas, de beleza, de vestuário, sedução, erotismo, saber, viver, alojamento... Modelos afetivos práticos de personalidade! Morin aponta para o perigo dessa influência sobre o público, pois essa nova cultura mediática age diferentemente, de acordo com o nível cultural dos povos a ela submetidos. Da mesma forma, alerta também sobre as conseqüências psicológicas, morais e éticas da cultura de massa sobre o homem.

Diferente de outras culturas que existem ao longo do tempo da história humana esta não cultua, não defende, não prega o engrandecimento humano, não traz no seu bojo a hominização. Morin preceitua que a cultura de massa bloqueia, reciprocamente, o real e o imaginário, numa espécie de sonambulismo permanente ou de psicose obsessiva. Assim ocorreria com todos aqueles que sem condições de adaptar uma parte de seus sonhos à realidade e uma parte da realidade a seus sonhos. Ou seja, a cultura de massa se adapta aos já adaptados e adapta os adaptáveis, integrando-se à vida social onde o grau de desenvolvimento econômico e social lhe fornece e favorece seres humanos. Há telespectadores que muitas vezes não conseguem distinguir a programação ao vivo do programa gravado. Não raro, alguns dentre eles telefonam para a emissora que está levando ao ar algum programa, para se referir a qualquer aspecto da emissão, supondo que a transmissão seja direta e surpreendem-se com o equívoco.

Para alguns analistas, um dos grandes perigos da televisão está nesse caráter híbrido, que favorece a (con) fusão entre informação e fabulação, ou entre registro documental e ficção ou, ainda, entre o presente exercido e o simulado, abrindo brechas para se vender gato por lebre. A inexistência de marcas distintivas entre as duas modalidades de programação televisual – a emitida ao vivo e a pré-gravada - acaba por confundir as categorias do real e do fictício e torná-las cada vez menos ontológicas e cada vez mais coercitivas, de onde o corolário invetável da TV como instrumento para a alienação. Umberto Eco lembra que na TV moderna temos visto surgir programas em que documentação e ficção se misturam de modo indissolúvel, a ponto de a distinção entre notícias verdadeiras e invenções fictícias tornar-se irrelevante. O público, de forma geral, merece que pelo menos os programas de informação digam a verdade, ou seja, atenham-se aos fatos, mesmo que todo mundo saiba - ou pelo menos intua - que de alguma forma todo fato é sempre manipulado ou interpretado na abordagem televisiva. Já nos programas humorísticos, novelas, filmes para TV, comédias e congêneres, aceitam-se liberalidades de toda espécie, pois já se sabe que eles trabalham apenas com fatos forjados pela imaginação, mesmo que - rigorosamente falando em termos de anunciação - não haja diferença audiovisual entre o desembarque na lua documentado ao vivo e outro extraído de um filme de ficção, por exemplo. E há os que tomam a ficção por realidade, como o telespectador que agride o ator que interpreta o vilão de uma novela ao encontrá-lo na rua. Comportamentos assim são considerados alucinatórios, mas o perigo maior está concentrado em pequenas aberrações, não nas grandiosas.

Cria-se assim uma ilusão referencial, segundo a qual o leitor, ouvinte ou telespectador, acredita que o que lê, ouve e vê na tela é a realidade, quando, na verdade, não é senão uma construção da realidade. Essa capacidade de construir a realidade é uma qualidade positiva dos meios como extensão do homem, pois permite ao receptor alargar o seu mapa do mundo. Mas também se constitui em um perigo porque permite aos meios oferecer um mapa tendencioso. Como o próprio nome parece indicar os media fazem um papel de mediação entre a realidade e as pessoas.

O que os meios de comunicação social mostram não é a realidade, mas a construção da realidade, da enorme quantidade de fatos e situações disponíveis a seu bel prazer, combinando-os entre si, e estruturando as mensagens e programas de ideologia, com seus estilos e intenções que lhes atribuem os comandantes dessas redes. Até agora a comunicação tem sido utilizada muito mais para legitimar e manter uma ordem social caracterizada pela exploração da maioria, pela verticalidade e o autoritarismo de relações, pela demagogia e o apelo às emoções fáceis. Pais e professores que alertem seus pupilos!


domingo, 7 de outubro de 2007

Educomunicação, um paradigma em vias de construção e boa utilização.


Gladis Maia
Feliz aquele que transfere tudo o que sabe e aprende o que ensina. Cora Coralina.
A tecnologia é um dos níveis de expressão da globalização e da pós-modernidade e os avanços tecnológicos nas áreas de comunicação e informação invadem todos os campos da vida pública e privada e chegam até a escola. São ventos da pós-modernidade: informática, Internet, realidade virtual, Dvd, telefone celular, chats, TV a cabo ... Informação e imagens saturam os sentidos de todos, em especial das crianças e jovens, que mais do que nunca constroem sua visão de mundo e de identidade com forte influência nas mídias.
O educador é um comunicador porque fala com todo o corpo, porque ele é uma mensagem complexa e, junto com o conteúdo programático, coloca sua experiência de vida, seu modelo de adulto, realizado ou não, feliz ou não: uma pessoa que vale a pena conhecer ou não. Educação e Comunicação andam juntas, quanto mais a primeira se valer da segunda, melhor será o ambiente, melhor aceitas serão as práticas educativas. O educador é um comunicador que precisa fazer uma interação, uma ponte como forma de lidar com o conhecimento, diferente de como vem fazendo.
As novas tecnologias inseridas no sistema educacional têm sido anunciadas como redentoras da educação, especialmente junto às Universidades, pois mesmo à distância, possibilita uma ampla acessibilidade e democratização do conhecimento, superando a ausência ou limitações daqueles que não podem participar de processos presenciais de formação. No entanto, há aspectos importantes que precisam ser considerados. Um deles é o de que a Educação não é mera transmissão de Conhecimento. Como diz Paulo Freire: educar e educar-se, na prática da liberdade, não é estender algo desde a sede do saber até a sede da ignorância para salvar com este saber, os que habitam nesta.
Seja como ferramenta pedagógica ou como objeto de estudo, a inserção de tecnologia da informação e comunicação na Educação deve fundamentar a reflexão crítica sobre seus conteúdos, transformando informação em conhecimento e formando receptores ativos. Mas a Educomunicação quer mais, muito mais. Quer, através da produção de vídeos na escola, trabalhar as capacidades cognitivas, afetivas e psicomotoras dos alunos que aprenderão não só a analisar, mas aprender a fazer o produto das mídias. Quer um aprender e um ensinar – aprendendo-ensinando, ensinando-aprendendo – num lugar onde o diálogo, a argumentação, a polifonia, a participação, a ação, a colaboração, a diversidade, o lúdico e a criatividade sejam uma constante.
A educação precisa considerar que através das mídias os jovens entram em contato com fatos culturais diversos, mas a recepção parece dar-se na superfície. Posto que não é feita uma leitura crítica dessas manifestações. Não há uma verticalização da leitura. A mediação cognitivo-cultural do professor pode fazer com que os signos visíveis sejam apreendidos em toda sua significação, atentando assim para as mensagens subjacentes.
Este fato está diretamente ligado à maneira como a escola trabalha com a linguagem: se numa perspectiva instrumental ou interacionista. Em face desta realidade, é imperioso que a escola compreenda que a visão do rápido processo de mudanças que vem se realizando mundialmente, torna emergente a reconsideração sobre a apropriação das meios de produção cultural e de seus efeitos sobre os receptores-alunos.
Não basta ser só um professor competente, numa área específica. O professor tem que ser também um excelente comunicador de toda uma experiência de vida que vale a pena transmitir junto com aquele conteúdo programático específico. Essa é uma questão de fundo profundamente tecnológica, ele é um comunicador total. Isso não se muda, não se improvisa com cursos rápidos.
A educomunicação define-se como o conjunto de ações inerentes ao planejamento, implementação e avaliação de processos, programas e produtos destinados a criar e a fortalecer ecossistemas comunicativos em espaços educativos presenciais ou virtuais. Gottlieb (2002), professor da Escola de Comunicação e Artes da USP e estudioso da Educomunicação - que se encontra em franco processo de consolidação - descreve o novo paradigma, como “um campo relacional, estruturado num processo mediático, transdisciplinar e interdiscursivo e que se materializa em quatro áreas de intervenção: a área social; da educação para a comunicação; da gestão da comunicação na educação; e a área da reflexão epistemológica”.
A Educomunicação também tem a finalidade de implementar ações para melhorar o coeficiente comunicativo na Educação, incluindo as relacionadas ao uso de recursos da informação no processo de aprendizagem. A importância da comunicação na Educação também está relacionada ao fato da dimensão pública da sociedade atual encontrar-se fortemente atrelada à ação dos Meios de Comunicação.
Não devemos esquecer, que nos dia de hoje, o conhecimento que temos dos fatos que acontecem além do nosso meio social imediato, é, em grande parte, derivado de nossa recepção das formas simbólicas mediadas pela mídia, e desta forma, ela obrigatoriamente passa a ser matéria de estudo. Espero ter passado uma idéia do que é a Educomunicação, mas voltaremos ao assunto, certamente!

sábado, 6 de outubro de 2007

Televisão: pode e deve ser material de estudo permanente nas Escolas.





Gladis Maia
Pessoas que assistem diariamente à TV tendem a acreditar que a sociedade é mais violenta do que realmente é. A televisão cria uma espécie de mundo paralelo que muitos associam, de maneira equivocada, à realidade. A formação de telespectadores conscientes, capazes de ‘ler’ a televisão sob o prisma da ética e da cidadania, torna-se em função disso uma prioridade que a escola não pode abrir mão. Sérgio Rizzo, in Nova Escola, dez.1998.

Os novos tempos não são mais de decorebas, muito menos de aulas carrancudas. O mais urgente é que os alunos compareçam a escola e gostem de lá permanecer. Uma escola que não ensina como assistir à televisão é uma escola que não educa, afirma o pedagogo espanhol Joan Ferres. Autor de várias obras sobre o tema, como: Televisão e Educação, Televisão Subliminar e Vídeo e Educação, ele observa que a tendência nas escolas é a de adotar atitudes unilaterais diante do fenômeno da televisão.
Diante do conteúdo exposto pela TV, as pessoas dividem-se em apocalípticas ou integradas, na terminologia da dicotomia maniqueísta trabalhada por Umberto Eco. Talvez na escola o predomínio seja das primeiras, as catastróficas que afirmam que a TV provoca todo tipo de males físicos e psíquicos: problemas de visão, passividade, consumismo, alienação, trivialidade... No extremo oposto a outra postura vê na TV uma oportunidade para a democratização do conhecimento e da cultura, para a ampliação dos sentidos e potencialização de aprendizagem.
A televisão representa a cultura da opulência e da diversidade, a cultura da liberdade, das opções múltiplas. Concordando com Eco, Ferrés lembra que as atividades extremistas acabam confluindo, levando a resultados semelhantes. A atitude mais adequada é a aceitação crítica, o equilíbrio entre o otimismo ingênuo e o catastrofismo estéril, um equilíbrio que assuma a ambivalência do meio, as suas possibilidades e limitações, e as suas contradições.
O telejornal, por exemplo, pode dar a sensação de que é um retrato do que ocorreu de mais importante naquele dia no país, no mundo... Pura ilusão! Os noticiários televisivos transmitem um volume muito restrito de informações. Irrisório, se comparado a de um jornal diário ou a uma revista semanal. Mas, não dá para negar que a TV pode levar o mundo até casa do telespectador, permitindo que ele assista, ao vivo, a eventos históricos como guerras e viagens espaciais. Acompanhados por milhões de telespectadores, os noticiários são capazes de mobilizar toda a sociedade em torno de movimentos políticos, como a campanha pelas eleições diretas, a derrubada de Collor, etc.
O telespectador assíduo sabe que a violência permeia, com maior ou menor intensidade, quase todos os gêneros de programas televisivos. Embora os efeitos dessa super-exposição sobre seu comportamento não possam ser medidos com precisão, é impossível negar que ela contribui para deformar a percepção da realidade. Por outro lado, o desafio de ensinar os alunos a ver televisão com esse olhar crítico implica num conhecimento mais aprofundado desse poderoso meio de comunicação.
Na mesma reportagem da epígrafe, o jornalista - e crítico de TV - Eugênio Bucci, autor de O Peixe Morre pela Boca e Brasil em Tempos de TV , argumenta que saber ver criticamente a televisão é condição básica para o exercício da cidadania e considera fundamental que a escola abra um canal pelo qual as crianças possam se manifestar,verbalizar, elaborar por que vêem televisão, o que gostam de ver na TV, o que as atrai, etc.Com isso seria possível, aos poucos, desmontar o discurso da televisão e também o da publicidade. Ele é da opinião de que a TV hoje organiza o espaço público brasileiro: teria sido ela que, após o golpe de 64, conferiu a identificação dos brasileiros entre si, promovendo a integração nacional no plano do imaginário.
Na realidade temos que convir que se houver um motivo ético por detrás da programação da TV, isso é válido, mas perigoso, pois no maior valor deste meio, que é atingir um grande público completamente diversificado, encontra-se também a sua maior periculosidade. Já imaginaram se Hitler, ao invés do rádio, tivesse usado a televisão? As pessoas precisam estar preparadas para lerem e entenderem as linhas e as entrelinhas da mensagem televisiva.
Se a escola tomar a si o trabalho de desnudar a televisão estaria plantando a semente para o desenvolvimento de telespectadores críticos. Este é um trabalho que acabaria com a discussão em torno da censura na TV, pois, mais importante do que controlar o que a TV veicula diariamente é preparar o público, sobretudo os telespectadores mirins, a vê-la sem se submeter e ela. O importante é saber usá-la para a vida, sem ser usado por ela.
É papel da escola informar aos seus alunos que as TVs dão destaque a fatos irrelevantes, ocupando um espaço descomunal, alguns deles ligados a figuras do próprio canal de televisão. As reportagens, mesmo as mais extensas, dão apenas uma versão entre as inúmeras versões possíveis de uma notícia. Os interesses dos proprietários das redes de TV podem influenciar o conteúdo do noticiário, favorecendo a um candidato em época de eleições, um ponto de vista sobre um determinado assunto, etc. O noticiário, pode ser vítima de restrições políticas, e por aí vai.
Diante da inegável influência da TV sobre as crianças e jovens, outra função essencial da Escola é a de servir de termostato, no sentido de sua atuação como regulagem para o amortecimento das tensões e na regulagem de volta ao que é fundamental para o homem. E, talvez o mais importante papel da escola, seja o de comprometer-se com a memória da civilização, porque quem vive dentro das mídias perde a memória e o sentido de importância das coisas, até porque ao telejornalismo o que interessa é o anormal, e quando o tecido da história é feito de acidentes de erupções vulcânicas, nem sequer há mais o fio da história.Pensem nisto!

terça-feira, 2 de outubro de 2007

A educação precisa render-se, à TV e a todo o seu peculiar encantamento.

Gladis Maia
Até bem pouco tempo dizia-se que a arte imita a vida... E quanto ao11 de setembro que repetiu uma aventura hollywdiana?

A TV inseriu-se de tal forma na vida cotidiana que hoje é quase impossível pensar os eventos sem a sua presença. Vejam que ela mudou, substancialmente, a prática dos esportes. Atualmente, a própria televisão participa da organização e administração dos eventos, transformando competições em espetáculos televisivos. Ela privilegiou o espaço profissional em detrimento do atletismo amador e converteu os atletas em estrelas. Acontecimentos políticos, cerimônias oficiais e até mesmo atentados terroristas são concebidos, antes de tudo, como encenações para a mídia.
Os eventos não acontecem mais, via de regra, por conta própria, eles pressupõem a mediação da TV e são forjados em função dessa mediação, isso quando não são produzidos diretamente pelas redes de TV ou sob sua influência direta. A luta política passa hoje necessariamente por dentro da enunciação televisual. Ficar de fora, criticando aristocraticamente os seus mecanismos de alienação, é um erro estratégico que pode resultar em irresponsabilidade social. Se a escola não for capaz de compreender isso, estará se condenando ao limbo.
Fazendo-se um rápido retrospecto da história do século passado, é notável que os mais influentes líderes de massa foram - antes de tudo - excelentes oradores e se davam muito bem com os altos-falantes das praças públicas ou com os microfones do rádio, assim como: Lenin, Hitler, Mussolini, Churchill, De Gaulle, Perón, Luther King, Fidel Castro e até mesmo Leonel Brizola. Todos se encaixavam nessa classificação. A partir dos anos 60, porém, com a TV ganhando cada vez maior importância como veículo de massa, tornou-se difícil acrescentar novos nomes à lista dos líderes carismáticos de grande apelo popular. Acredito inclusive que Brizola não tenha se elegido para presidente porque não dominava este veículo de comunicação, um dos seus “defeitos” era estender-se por demais em suas falas, por exemplo.
A que você atribuiria a eleição de um ator para a presidência de um dos países mais importantes do planeta? Eu aposto na sua performance televisiva! Diante disto, considerando-se, entre outros temas, o fato da política passar necessariamente pela TV – enquanto, nesse meio tempo, os políticos tornam-se cada vez mais experts, nas formas de se comportarem em relação a essa mídia – é necessário que a escola tome a si o papel de formar telespectadores críticos, pois só assim a TV não será mais um instrumento de dominação de muitos, por uns poucos.
O poder da mídia reside também em outro gênero de programa que são os videoclipes, que soberanamente vem agradando aos jovens. Ele se impôs como uma nova forma de expressão dentro do universo do vídeo e rapidamente ganhou espaço dentro e fora da televisão, conquistando um amplo contingente de adeptos e provocando uma pequena revolução no interior da televisão. Concorde-se ou não, a verdade é que torna-se cada vez mais difícil fingir ignorá-los ou supor que se trata apenas de um fenômeno de moda. Talvez resida nele a expressão mais acabada da modernidade – com seu poder de síntese e sua conseqüente economia expressiva – embora resulte num produto que dificilmente a inteligência tradicional entenda ou engula.
O estranhamento maior está certamente relacionado com ao fato do videoclipe poder dispensar inteiramente o suporte narrativo, coisa com a qual o seu público já está preparado para aceitar. As imagens podem ser escolhidas sem nenhum significado imediato, sem qualquer denotação direta, sem referência alguma, no sentido fotográfico do termo, harmônico com o da música. O que está presente na maioria dos clipes é: uma forma não-narrativa, não linear. O que importa é menos a intenção de se contar uma história e mais o desejo de se passar uma overdose de sensações, através de informações não-relacionadas, sons e imagens, mesmo desconexas.
Não residiria no videoclipe - a ser assistido, a ser produzido - um campo próspero de estudo para a escola trabalhar, além de conteúdos científicos, as singularidades dos seus sujeitos, suas diferentes sensações, emoções, valores, etc.? Esta produção de vídeo não poderia servir de elo entre toda a comunidade escolar, envolvendo professores, alunos, funcionários, especialistas, pais, etc., indo para além dos seus muros, ao encontro da sociedade onde se insere cada escola? Não caberiam campanhas a serem deflagradas na comunidade escolar – interna e externa - através de clipes, e, em especial, com o mote do valor da fraternidade, da equanimidade de direitos, do respeito aos semelhantes, do valor da amizade e tantos outros sentimentos, temas e ações que resultam numa escola e numa , conseqüentemente, sociedade inclusiva?
Diante do contexto criado pelas novas tecnologias da comunicação e da informação, o discurso da educação não consegue isoladamente posicionar-se, torna-se insuficiente. Por outro lado, diante dessas novas mediações, a educação e a Comunicação não podem também ser pensáveis como atores independentes e isolados deste novo ecossistema de comunicação educativa. Porém a simples introdução dos meios e das tecnologias na escola, pode ser a forma mais enganosa de ocultar seus problemas de fundo, sob a égide da modernização tecnológica.
O desafio é como inserir na escola um ecossistema comunicativo que contemple ao mesmo tempo: experiências culturais heterogêneas, o entorno das novas tecnologias da informação e da comunicação, além de configurar o espaço educacional como um lugar onde o processo de aprendizagem conserve seu encanto.Voltaremos ao assunto!

domingo, 30 de setembro de 2007

Eles são da geração pós-TV e aprendem diferente de nós

Gladis Maia

Quem ouve música sente a sua solidão imediatamente povoada.Robert Browning

Pierre Babin e Marie-France Kouloumdjian in ‘Os Novos Modos de Compreender’, levantam a hipótese de que uma nova cultura está nascendo, baseados numa pesquisa que realizaram, na década de 80, na América do Norte, África e Ásia, envolvendo jovens e educadores de horizontes e idades diferentes, professores do ensino superior e de 2º Grau e sociólogos. Ficaram visíveis as rupturas de valores e de comportamentos entre os jovens e os adultos, perceptíveis em canais como na linguagem e modos de expressão em geral, na relação com o mundo, nas suas percepções essencialmente diversas da geração anterior.
Os jovens não são mais contra estes ou aqueles valores em relação aos quais tentam definir sua identidade. Eles ‘estão em outra’, num sistema diferente, dentro do qual se inserem de modo original e que, pouco a pouco, constitui uma verdadeira e nova cultura. Os jovens da década de 80 ( e 90 e do início do século XXI) diferem bastante dos contestadores que os antecederam, não são contra, nem a favor.O discman no ouvido é uma imagem sugestiva, não da revolta entre gerações, mas da distância que as separa. A oposição - marca característica do choque de gerações - metamorfoseou-se em ‘desnorteio’; o combate sócio-político, transformou-se em salvaguarda da ecologia; a organização revolucionária deu lugar às ações pragmáticas; as ideologias foram trocadas pelos discos. Não há agressividade! há apenas distância e uma certa impotência para comunicarem-se! Não há rompimento com a família, ou pelo menos é bem mais leve do que antes. A própria incomunicabilidade não é tão radical assim. ‘Cada um na sua’, como eles mesmos dizem.
Muitos comentários desabonadores foram feitos pelos entrevistados professores e pais) a respeito dos jovens da década de 80. Os pais se queixam que os filhos estão sempre com ‘o som a mil’, que estudam em frente à TV ou ouvindo música, estão sempre com seus discos - hoje cds - TV ... ‘Na deles’, fugindo do diálogo! Os adultos se queixam de que os jovens tornaram-se incapazes de acompanhar por muito tempo uma explicação, um discurso qualquer de conteúdo intelectual. Após 15 minutos já estão em outra ...
As principais queixas da cultura tradicional à jovem geração são sobre: o nível de inteligência’ , que teria baixado. Dizem que eles ‘são incapazes de se concentrar’; ‘colocam tudo no mesmo pé’; ‘são passivos’, ‘há uma perda de raciocínio e do espírito crítico’, ‘falam sobre tudo, mas nada sabem’; “vivem em outra’. Para os pedagogos e psicólogos atribuem a queda da atenção entre os estudantes, ao fato de muitas crianças dormirem pouco, por ficarem vendo TV até tarde.Esta mudança de hábito gerada pela TV, com seu peculiar bombardeio de informações, submerge-os e impede-os de se concentrarem num ponto especial. A civilização eletrônica acelera os ritmos: a própria música é tocada com mais rapidez do que antes. Mas, em compensação, esses jovens têm um excelente grau de concentração quando se trata de algo do seu interesse genuíno. Concentram-se nas suas músicas, nas suas histórias em quadrinhos, nos seus filmes, nos seus vídeos.
Pierre e Marie-France relatam que numa das experiências da pesquisa assistiram o filme Woodstock com jovens alunos, que fascinados confessaram viver quatros horas de paraíso; e alguns acabaram vendo o filme cinco ou seis vezes. Já quando os autores assistiram o mesmo filme, com alguns educadores, muitos destes confessaram ter dormido durante a exibição. Tantos outros reclamaram por que levaram quatro horas para dizer o que poderia ter sido dito em 20 minutos, na sua concepção... Pergunta-se: quem foi passivo, quem foi mesmo que não se concentrou? Quem tem pressa?
Se é difícil para os jovens concentrarem-se em conceitos, discursos desprovidos de ritmos, imagens, sons, vibrações, não é o caso quando esses elementos estão presentes. E se o conhecimento pela TV fosse uma forma de entrar na vida divertindo-se, passeando como numa floresta? E se esse conhecimento pela televisão fosse uma familiarização, uma aquisição, caminho na verdade insuficiente, mas necessário para um conhecimento e uma enunciação mais profunda? Portanto: um outro modo de aprender!
Muitas queixas sobre a dificuldade de os alunos expressarem-se na sua língua nacional assemelham-se bastante às dos professores de português no Brasil onde a literatura inspiradora agora são as revistas, o rádio, a TV e o cinema. Escrevem como se estivessem falando. Apresentam dificuldade de compreensão de vocabulário. Usam linguagem oral nas redações. Fazem frases tipo slogan. A página escrita não tem consistência, nem permanência, é como se fosse um programa de TV. Não consideram mais a ortografia, escrevem as palavras como são pronunciada. Só conseguem guardar da dissertação uma palavra-chave, uma informação. Seus textos são cheios de abreviações estranhíssimas e repetições, que pontuam a frase, ou suprimem as palavras que faltam.
Os alunos americanos e os africanos, da pesquisa, em suas falas expressavam bem os prenúncios da incorporação da linguagem audiovisual, ou seja: falam com frases breves, expressões pesadas e sonoras,usam muitas onomatopéias. Usam acentuação vigorosa e ritmos irregulares; palavras e orações inacabadas – inter-cortadas ou completadas com gestos e caretas, supressões de verbos, de artigos e de pronomes. Mas não se enganem: esses jovens não apresentam falta de lógica, eles possuem outra lógica, diferente da linguagem padrão culto, mas ainda assim lógica.Voltaremos a esse assunto ainda nesta semana!

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

A nova linguagem nas falas e textos teria sido gerada pelo rádio e a TV?


Gladis Maia
Sabemos que de tanto trabalhar sempre o mesmo músculo, esse músculo se desenvolve. Assim também é com o comportamento intelectual. A ginástica interna, consciente ou não, que a prática da linguagem audiovisual desenvolve ao longo do tempo, determina uma maneira de compreender e de aprender, na qual a afetividade e a imaginação não poderiam, estar ausentes. Babin e Kouloumdjian (1989)

A maioria dos nossos alunos possui muita dificuldade para exprimirem idéias que não tenham raiz sensorial, ressonância emocional ou contorno visual. Nascidos e educados pela era audiovisual eles seguem as regras desta linguagem nos trabalhos da escola, onde suas produções costumam não ser bem-vindas. Isto é conseqüência do que eles sentem ao ver/ouvir a programação da telinha... É necessário que se compreenda que na escrita do audiovisual, nos seus roteiros e scripts, há a interpenetração íntima dos elementos cognitivos e afetivos. Mesmo que se trate de uma aula de economia pela televisão, por exemplo, essa aula reveste-se de profundo caráter afetivo, dependendo da personalidade do professor, do brilho dos atores, do som das vozes, da focalização dos rostos, do fundo musical, dos gestos e do conjunto do espetáculo. Exatamente como um bom professor na classe, talvez se dissesse ... Mas não é assim, é muito mais, pois é próprio do meio eletrônico ampliar a presença e a vibração sensorial. Pelo fato do visual e dos diálogos terem menos importância, num audiovisual, uma música atraente, alguns efeitos sonoros, os timbres e os efeitos de voz, as freqüentes mudanças de interlocutores são os elementos que primeiramente captam sua atenção. Sem contar o alto nível de atividade física ou de ação. A própria imagem e a experiência das relações é mais importante do que o discurso. Se observarem, é essa a ordem que preside as seqüências dos telejornais! Se vai de notícia a notícia, sem lógica aparente, e é o telespectador que liga os pedaços, se pelo menos o conjunto lhe deu alguma experiência unificada, é claro! Enquanto no discurso habitual de um livro ou de uma conferência, a lógica é inscrita objetivamente na pontuação e nas conjunções coordenadas, nos audiovisuais as seqüências não têm lógica dedutiva. A tonalidade afetiva do começo, é que vai determinar a compreensão do telespectador. Na etapa de compreensão ou elaboração do sentido, aquele que recebeu a mensagem da confusão inicial, passa a elaborar o que viu e ouviu. Quando acontece a reflexão diante e sobre o que se viveu e sentiu, se está diante do tempo do distanciamento. Tempo da conceitualização, da passagem às idéias gerais, da apropriação ou reconstrução na linguagem do espectador. E, enfim, surge o julgamento crítico sobre o conteúdo, a forma, a linguagem, a técnica, os processos utilizados, os fundamentos comerciais, políticos, culturais, econômicos,etc., postos em jogo. Esse é um momento importantíssimo! Se o audiovisual constitui uma ameaça, é porque muitos espectadores nunca chegam a essa etapa. Assim, muitos deles só retém o que convém à sua personalidade e ao seu papel. Num filme sobre técnicas de venda, por exemplo, um vendedor vê alguns de seus defeitos e confirma algumas de suas qualidades. Ele esquece pelo menos 60% das outras informações. E assim cada um em sua área de interesse fará a seleção.... Todas essas influências fazem com que os jovens sintam a necessidade de uma outra linguagem, mais livre, mais imaginativa, mais rápida. Treinados para a distância afetiva e para desconfiança da imaginação, nós, os homens da Era Gutemberg vimos com maus olhos a Civilização Audiovisual Eletrônica, que liga intimamente a sensação à compreensão, a coloração imaginária ao conceito. Mas as coisas mudaram e é preciso cuidado e disponibilidade para aceitar essa nova forma de ver e entender o mundo. O espírito analítico, rigoroso e lógico do professor ocidental é que dificulta a aceitação do meio audiovisual como promotor de conhecimento no seio da escola. A maioria dos educadores até rechaça a TV, vendo-a apenas como sinônimo de lazer, de diversão e de brincadeira. O fato deste meio trabalhar o conhecimento e a informação de uma forma quase física, esculpida na realidade, incomoda aos intelectuais, que acabam não levando em consideração nem mesmo a adoração das crianças e dos adolescentes pela telinha mágica. A questão básica é como guardar o essencial da aquisição de Gutemberg e, ao mesmo tempo, assumir os novos modos e valores da linguagem audiovisual? É este o desafio que a sociedade atual, e, em particular a Educação, precisa aceitar! Se os jovens forem abandonados à sua linguagem, com a força interna de desordem e de desagregação que carrega consigo, o resultado será o assassinato das línguas nacionais cultas. Porém, recolocá-los dentro do discurso literário tradicional, em raríssimas exceções, será impossível. Se é necessário a imersão total do telespectador para a compreensão de uma mensagem audiovisual – corpo/alma/telinha - faz-se mister a estada num segundo tempo, o tempo de distanciamento, para que ele chegue a uma certa verdade do conhecimento. Como referem os pesquisadores da epígrafe, in ‘OS NOVOS MODOS DE COMPREENDER’, que alertam que um grave perigo espreita as novas gerações: ficar na sensação, que é a primeira etapa pela qual passa o telespectador. O papel da Escola é educar para o audiovisual, para a apreensão do segundo tempo, porque uma escola que se propusesse somente a trabalhar com o audiovisual e continuasse o sistema de imersão além de 30% faria apenas demagogia e passaria à margem da sua função. Que a escola, que, ao longo de sua história, já foi forte em ensinar os mecanismos de distância reflexiva, crítica e científica, com os instrumentos de ontem – especialmente a escola particular – e com seus métodos tradicionais se especialize para estar apta a resolver os problemas que nos afligem hoje, no tangente a essa transição na área da linguagem.

O globo eletronicamente interligado precisa comprometer-se com todos

Gladis Maia

Para os homens da tribo, as palavras são como a água que deve passar de mão em mão, com o maior cuidado, para que nem uma gota se perca. David Riesman

Cada nova tecnologia é uma nova extensão do homem. Cada meio que surge é uma nova possibilidade de expressão para os seres humanos. A palavra - fonética e escrita - sacrificou o mundo de significados e a percepção. As culturas letradas somente dominaram as seqüências
lineares. O segredo da imprensa é a fragmentação da experiência em unidades uniformes. As diferenças entre a comunicação oral e a escrita são de ordem semântica, psicológica e sociológica.
Estas diferenças geram diferentes comportamentos e percepções. O olho do leitor, na busca de um significado após o outro, faz uma codificação linear do real. Já as novas linguagens eletrônicas exigem uma outra codificação, simultânea, que recupera - de uma certa forma - a percepção do homem pré-letrado. O livro isola, a palavra falada agrupa. O livro leva ao ponto de vista e a uma atitude crítica; e a palavra falada implica em uma participação emotiva. Como há uma tendência do ser humano a recordar melhor as coisas mais profundamente sentidas, as palavras recordadas na tradição oral são freqüentemente as mais carregadas de sensibilidade coletiva.
A transmissão oral de contos e lendas, anterior à Renascença, aplica-se ao ouvido. Foi a partir da invenção da Imprensa por Gutemberg que a matéria do conhecimento passa a ser aplicada à visão, num exercício linear. Nos dias de hoje, em plena era eletrônica, não só um ou outro
sentido – audição e visão - mas um processo de envolvimento múltiplo audiovisual definiria o relacionamento entre emissor e receptor, na apreensão das mensagens.
Segundo os estudiosos da Comunicação, o ouvido - órgão receptor por excelência na sociedades arcaicas e primitivas - ter-se-ia embotado pela mecânica tipográfica dos últimos 500 anos de história ocidental. Só muito recentemente, graças a presença do rádio e da TV, volta-se a estimular aquele sentido.
Depois de séculos de saturação de uma tecnologia ótico-linear, chega-se a um espaço cultural novo, ou novamente auditivo, criado pelos canais eletrônicos de comunicação – rádio, telefone, TV. Meios que envolvem o sujeito, integram-no em um campo de vivências e, por paradoxal que possa parecer, lhe conferem uma percepção tão rica quanto a do homem analfabeto ou primitivo.
Por meio das técnicas em mosaico - assim chama McLhuan aos processos de montagem simultânea de TV e dos meios que a imitam - unifica-se a linguagem do homem contemporâneo que, apesar das distâncias, está vivendo numa só aldeia global. A era eletrônica não seria, portanto, uma etapa na história da mecanização e da atomização, peculiares ao Homo Typographicus. Ao contrário, ela significa uma ruptura com ambas e a retomada de uma convivência orgânica, tribal.
McLuhan refere-se a era tribal, de tradição oral, como um período mais íntegro, menos fragmentado; era que as técnicas eletrônicas estariam começando a restaurar. Toda tecnologia obriga aos que contatam com ela a novos equilíbrios. A eletricidade envolve o indivíduo com toda a humanidade. O computador que traduz outras línguas anuncia o advento de uma condição pentecostal de compreensão e unidades universais. As línguas foram superadas por uma consciência cósmica geral.
O globo foi eletronicamente contraído e a consciência humana terá, para McLuhan aumentando a sua responsabilidade, seu compromisso com os outros. Aprecem, pois, como corolários de tecnologia, uma empatia entre os homens e uma aspiração pela totalidade. Este otimismo se patenteia em ‘Mutações em Educação’, livro que aborda o problema do estudante numa escola-planeta. O aprendizado seria uma exploração lúdica da realidade, semelhante à da criança, a do artista. A aula sem paredes seria ministrada pelos Meios de Comunicação de Massa.
Atentos pois professores: é hora, mais do que nunca, de encantar a garotada cujos ouvidos voltaram a funcionar em pleno vapor, com aulas alegres e muito sedutoras!