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quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

NÃO UMA ESCOLA ESPECIAL, MAS UMA ESCOLA REGULAR, DE ESPECIAL QUALIDADE PARA TODOS!





                Gladis Maia

Não é novidade para ninguém, acredito, que os elevados níveis de desigualdade social e regional fazem do Brasil um dos países mais tiranos e perversos, em sua distribuição de renda. Enquanto 10% dos brasileiros concentram cerca de 45% da renda nacional – colocando-nos entre os ricos mais ricos do mundo – cerca de 10% dos mais pobres não chegam a somar 1% da renda do país, cabendo-nos a triste sina de sermos os pobres mais pobres do mundo.

Diante deste triste quadro, é  óbvio que o sistema educacional sofra os reflexos desta desigualdade econômica,  social e cultural. Na área da Educação,  afirmar que os excluídos são apenas os deficientes, é no mínimo desinformação, basta nos nortearmos pelos elevados índices de fracasso escolar, revertidos em reprovação e evasão, mais particularmente nas escolas públicas deste nosso continental país.

A proposta da Inclusão, pressupõe um mundo inclusivo, onde todos  tenham acesso às oportunidades, partícipes de uma sociedade que não seja marcada só pelo interesse econômico ou pela caridade pública, mas pelo respeito à cidadania.

 Uma sociedade onde imperem sentimentos sadios de  cooperação, solidariedade e respeito às diferenças de etnia, religião, gênero, lingüísticas,  capacidades, deficiências, etc.

Uma sociedade onde crianças, jovens e adultos – com ou sem deficiência - residentes em zonas urbanas ou rurais, em grandes e pequenas cidades, tenham mais sucesso em suas vidas e, substancialmente, na maravilhosa experiência da aprendizagem acadêmica, a qual todos têm direito ou pelo menos deveriam tê-lo.

 Quem conhece um caleidoscópio – apontado como a melhor metáfora para simbolizar a Inclusão escolar - sabe quão lindas e múltiplas figuras se formam a cada movimento naquele precioso objeto.

Ele tornou-se símbolo da Inclusão porque nele todos os pedacinhos são importantes e significativos para a composição da imagem; quanto mais diversos forem, mais complexa e rica se torna a figura do conjunto.     
Paradoxalmente, quando falamos em Inclusão, essa riqueza e  complexidade assustam muito, é aí que reside o maior obstáculo de sua concretização, inclusive, pois o despreparo do professor para lidar com a realidade multifacetada é visível já à primeira vista.

 A maioria dos educadores foi formada para atuar em turmas homogêneas, mais especialmente nas turmas “As”. Lembro-me que, na década de 70, minha escola possuía várias 5ªs séries, que iam de “A” a “F” – logo após a reforma que mexeu com o português e aboliu uma das séries do Ensino Fundamental – e, evidentemente, que ninguém queria dar aula para as “D” , “E” e “F” ... Felizmente estas divisões estão em desuso em nossos dias!Pelo menos no papel.

Desmotivados para viver a experiência da escola inclusiva – baixos salários; dupla ou tripla jornada de trabalho; falta de recursos para cursos de atualização e compra de livros ou de tempo para a sua leitura;  sentimentos de rejeição e revolta, decorrentes das imposições de cima, por força da lei ; entre outros motivos – a maioria dos professores das escolas regulares declara não estar preparada para inserir alunos com deficiência em suas turmas.

E o pior, é que as queixas dos professores são verdadeiras e afetam os anseios de todos os educadores, mesmo daqueles que acreditam piamente no ser humano e na importância do saber, como um bem essencial à vida de todos nós.

 Os governos, em todas as instâncias, precisam acordar para esta triste realidade, antes que seja tarde. Antes que a violência se espraie ao nível do terror, antes que a maldade seja a tônica, antes que as boas intenções sejam amordaçadas e tidas como subversão à ordem do salve-se quem puder... Estamos assistindo ao treiller, todos os dias nos noticiários...

As autoridades educacionais, em particular, precisam estar atentas na qualidade de formação inicial de nossos professores – em nível de 2º Grau ou Superior – para que possamos encontrar soluções compatíveis com a urgente necessidade de melhorarmos as respostas educativas de nossas escolas especiais para todos os alunos.

A formação de qualquer professor deve ser rica o suficiente para permitir não só uma fundamentação teórica de bom nível, mas uma consciência da realidade que irá atuar, pois a relação entre a habilitação acadêmica e o cotidiano das escolas está terrivelmente dissociada , resultando nos altos índices de fracasso escolar.
E, chega de taparmos o sol com a peneira, responsabilizando apenas os alunos  pelo seu fracasso escolar...

Todo professor deve ser um especialista em aluno - um ser, com sentimentos e desejos,  que evolui e constrói conhecimentos a partir da bagagem de formação e informações que traz ao chegar à Escola.

Especialistas em alunos - seres que necessitam ser formados como pessoas, capacitados para pensar bem, como prega Edgar Morin, e  agir no exercício da cidadania.

Especialistas – com uma visão de conjunto, que entendam da sociedade e da educação na sociedade, como prega Freire - hábeis e criativos na práxis professor-aluno, para ajudar aos menos vividos na academia, na construção de um saber crítico e reflexivo.

Professores que saibam formar cidadãos,  que tão logo tenham consciência da importância,  ajudem na construção de  um mundo mais fraterno e solidário, que persiga a paz entre  os homens.

A escola inclusiva não é aquela que apenas abre matrículas para receber pessoas com deficiência, mas aquela que dá acesso, ingresso e permanência para estes alunos e todos os outros que baterem às suas portas. E, ao recebê-los, integra-os à totalidade do grupo, tornando-os aprendizes da experiência de pertencer à sociedade, como seres humanos de 1ª grandeza: aprendizes do sucesso, vivenciando as benesses e  as responsabilidades de ser cidadão.

Diante desta radiografia desoladora, parece-nos evidente que o contingente de excluídos do acesso e usufruto aos bens e serviços acumulados historicamente  seja formado apenas por portadores de deficiência -  embora nesta camada a incidência seja mais  dolorosa – mas contenha todo tipo de marginalizados. Reflitam sobre isso! Namastê!

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Redes de solidariedade são fundamentais para os PNE construírem suas individualidades



Gladis Maia

Do nascimento à morte, o ser humano participa de uma trama interpessoal que o molda e que ao mesmo tempo contribui para moldar a sua rede social. No início ela é constituída pela família, depois os amigos passam a integrá-la, os colegas de estudo e de trabalho e outras pessoas que formam a sociedade na qual se vive. O vínculo pode ser considerado a palavra-chave para a compreensão do conceito de rede social.

Alguns estudos sobre estas redes colocam em evidência a importância dos vínculos sociais extra-familiares na vida cotidiana dos seres humanos, em função dos traços de afinidade, que formam uma teia, unindo as pessoas. Uma rede de solidariedade é fundamental para a construção e o desenvolvimento da individualidade.

Uma rede social pessoal estável, sensível, ativa e confiável protege a pessoa na vida cotidiana, atua como agente de ajuda e encaminhamento, interfere na construção e manutenção da auto-estima, acelera os processos de cura e recuperação e aumenta a sobrevida.

É importante assinalar que a busca de melhor compreensão das vivências e relações familiares requer que se considere a cultura familiar como determinante do modo de funcionamento interno e as interações com o mundo externo.

No contexto da cultura familiar, o cuidado familial pode ser reconhecido por vários atributos, dentre os quais, de acordo com Ingrid Elsen, que cunhou a expressão cuidado familial no Brasil, cinco se destacam: a presença, a promoção da vida e bem-estar, a proteção, a inclusão e a orientação para a vida.

Ponto original da construção da rede de pertencimento do indivíduo, a família constitui uma rede de relacionamentos, um território de pertencimento recíproco, um espaço dos mais significativos para a convivência humana.
A presença compreende ações, interações e principalmente interpretações através das quais a família expressa solidariedade a seus membros.

A promoção da vida e bem-estar tem a finalidade de impulsionar, potencializar e qualificar a vida de cada um no grupo familiar e se realiza na criação de um ambiente físico e psicológico favorável às trocas afetivas e simbólicas e ao crescimento individual e grupal.
A proteção se manifesta antes mesmo do nascimento dos sujeitos, mas se efetiva em medidas que visam garantir a segurança física, emocional e social de cada um e do grupo familiar como um todo.
A inclusão visa à inserção familiar e social de seus membros. O sentimento de pertença é essencial não só à criança em desenvolvimento, mas a qualquer dos membros da família.

A convivência é considerada como uma das formas efetivas de desenvolvimento e cultivo da inclusão, não só na família como na sociedade e pode ser traduzida pelo respeito à individualidade, aceitação das diferenças, reconhecimento dos direitos de cada um, estímulo ao diálogo, entre outros aspectos.

E a orientação para a vida pode ser traduzida como um “guia internalizado” por cada um dos membros da família, na medida em que aponta para o que é considerado correto, aceitável, esperado, desejado para o indivíduo ou grupo familiar.

Muito se tem atribuído às escolas a formação integral do sujeito, esquecendo-se a importância da família e da sociedade neste processo, especialmente em tempos de inclusão, mas o desenvolvimento da personalidade e da plenitude das potencialidades de todo ser humano passa necessariamente pela presença ou ausência dos cuidados acima especificados. Nós somos essencialmente seres sociais. Pensem nisso! Namastê!