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quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Se votares nulo na próxima eleição teu protesto inócuo será um favor àqueles que deveriam ser banidos da vida política.




                                                  Gladis Maia


(...)votar nas reformas que o Brasil tanto necessita, como a agrária, na redução
do desemprego e na conquista do desenvolvimento sustentável, com plena soberania nacional, não serão oseleitos que te agradecerão, e sim teus filhos, as gerações futuras (...) Frei Beto, in Por que votar?


A gente vai ficando desiludida com o que os meios de comunicação nos informam diariamente a respeito da seara política... Parafraseando a bíblia,diria: é mais fácil um camelo entrar no furo de uma agulha do que um homem sério, de respeito, com boas intenções, cumpridor do seus deveres, preocupado com o social e com os destinos deste país e do nosso planeta entrar para a política ...


Mas, apesar disso, e até por isso, caro eleitor, não vamos deixar que os maus políticos destruam a nossa boa fé, a nossa esperança de dias melhores, neste país continental que tem, no mínimo, terra para todo mundo que, se bem cultivada, daria para alimentar todos nós e ainda exportar o excedente...


Nas eleições deste ano não vamos arrefecer e nos entregar ao desencanto, à inércia, à frustração. O voto é sagrado, não o destruamos! Deixar de votar ou votar em branco é sinônimo de abrir espaço à corrupção, ao caudilhismo, à tirania e rejeitar a democracia como meio legítimo e pacífico de conquistas sociais.


Em outubro próximo, quando formos às urnas, não nos iludamos com o marketing que aplica aos candidatos uma parafernália de “cosméticos” capaz de transformar “lobo” em “chapeuzinho vermelho” ou “vovozinha”... Todos na mídia ficam muito simpáticos, confiáveis e dispostos ao mais imaculado desempenho se forem eleitos...


Fiquemos longe dos palanques para ouvir e ler o palavrório com discernimento e distanciamento psíquico. Não vamos nos deixar enganar pela retórica das promessas enganosas, dos compromissos altruístas de quem dá esmola para se livrar dos mendigos... Vamos investigar a vida dos nossos candidatos, suas idéias, seus atos, sua ética.
Mesmo que o nojo teime em ser companheiro, vamos levantar a cabeça acima das bandeiras mentirosas dos políticos porque precisamos deles, pois eles representam as nossas instituições que devem ser firmemente fiscalizadas por todos nós.


Um dia - e eu quero estar viva para ver e aplaudir - a ascensão da política ao lugar que lhe é de direito.Pois, se a política servisse à maioria, teríamos menos desigualdades sociais e baniríamos o desemprego, a violência, a fome e a miséria.


Se Deus quiser estarei viva ainda quando a política deixar de servir ao sistema financeiro, aos credores da dívida pública, ao latifúndio e aos oligopólios.


Ah, eu quero sim estar viva para ajudar a eleger homens do porte de um Tche Guevara, de um Mandela, de um Gandhi, de um Marting Luther King, de um Chico Mendes, de um Lutzemberguer, de um Betinho ... E Deus vai permitir!


Você já se perguntou por que só algumas pessoas são cidadãs de primeira categoria? Quais as causas da fome, da miséria, da violência, das drogas? Por que os impostos são tão altos e há ainda tanta falta de saneamento básico ? Por que não se investe em Educação e em Saúde? Quem elege os políticos corruptos? Por que o Brasil não é de todos os brasileiros?


Nas próximas eleições, leve tudo isto em conta... Vamos desconfiar dos políticos que trazem o peito estofado e o olhar arrogante. Não vamos votar em quem só anda com ricos e poderosos...


Nesta eleição, vamos perguntar àqueles que admiramos, por seu exemplo de ética, em quem votarão. Vamos observar os projetos do partido e do candidato, mas olhando para trás e verificando se este partido já realizou algo semelhante antes. E, evidentemente, a pessoa em questão... Ninguém vira socialista de uma hora para outra, tenham a certeza absoluta.


Na eleição de outubro vamos ter cuidado com os alpinistas sociais. Eles são aqueles que teimam em vestir-se de cordeirinho. Eles inventam uma biografia toda pontuada de pobreza, de sacrifício, de boas intenções, com as mãos nos ombros dos futuros eleitores, olhos nos olhos, tapinha nas costas e no colo a criança mais ranhenta que acharem nas cercanias.


Eles adoram dizer-se filhos de operários, grandes lutadores que suaram a camisa para chegar aonde chegaram. Foram engraxates, balconistas. Iam para a escola sem sapato, sem meia, com fome. Estes são talvez os piores dentre a classe, por que são aqueles que ao serem eleitos ascendem a uma classe social da qual não querem mais sair e nem vislumbrar a classe baixa, querem distância, fazem uma volta para não atender a um pobre e nunca mais são achados nos seus gabinetes, que falavam que estariam sempre com as portas abertas....


Vamos lembrar, nas eleições deste ano, que todos os detalhes de nossa vida resultam da qualidade da política que predomina no país. O alimento que ingerimos, o transporte que utilizamos, o salário que recebemos, os cuidados de Saúde, a Educação de nossos jovens, o próprio lazer, enfim, a qualidade da cidadania que exercemos, dependem da política. Não adianta fugir dela. Nosso voto pode alterar ou reforçar as injustiças que fazem conosco ou com nosso vizinho perto ou distante.


O voto é a nossa arma! Abra seu coração, ele sabe qual é o voto certo, pois com nosso voto poderemos eleger homens e mulheres imbuídos de uma visão humanista, pessoas que achem imprescindível a dignidade a tal ponto que vivam na luta para estendê-la a todos os homens e mulheres adultos e a todas as crianças. Vamos eleger políticos que na sua história de vida carreguem uma lista de bons serviços prestados à humanidade. A urna nos espera! Que Deus abençoe a todos os eleitores e aos políticos de boa vontade, na eleição de outubro!Namastê!

terça-feira, 17 de junho de 2008

A fé, como a esperança não é a previsão do futuro é a visão do presente num estado de gravidez permanente.

Gladis Maia

Ter esperança significa estar pronto a todo momento para aquilo que ainda não nasceu e todavia não se desesperar se não ocorrer nascimento algum durante nossa existência. Não faz sentido esperar pelo que já existe ou pelo que não pode ser.

Erich Fromm, in A Revolução da Esperança.

Viver plenamente é agir em favor de um desejo de recuperação da dignidade, da integridade e da auto-realização em favor de sua própria vida e em prol da dos seus semelhantes. É estabelecer ou restabelecer esses direitos inalienáveis do homem! Viver plenamente é trabalhar com o conhecimento como um meio de libertar a humanidade do poder destrutivo do medo de sonhar com a reabilitação da vontade, da fé e da confiança no ser humano. Viver plenamente é ter como meta não o nosso extermínio através da guerra nuclear ou das catástrofes naturais, mas tratar o desenvolvimento tecnológico com uma reengenharia, que objetive novas descobertas tecnológicas e aproveitamento dos projetos já desenvolvidos somente - e sempre - a serviço do bem estar do homem.
Chamemos de feitiço contra o feiticeiro, criação contra o criador, maldição humana, ou outra expressão alhures, o certo é que, enquanto o homem - no auge da sua vitória sobre a natureza - tem concentrado sua existência na produção x consumo, sucessivamente, destruindo-se, tem-se portado como cego e surdo, insensível aos apelos da mãe natureza, que começa a mostrar sua força, com terremotos, vulcões, maremotos, temperaturas extremas,enchentes, temporais ...E,como se não bastassem: a fúria da natureza, as formidáveis guerras, agora ainda, cumprindo rituais sacros ou profanos, como shows e partidas de futebol, perecemos ante acotovelamentos e pisoteamentos de nossos irmãos de fé e de lazer ... Até aonde será que vamos, nesse ritmo?
A solução para este impasse passa necessariamente, acredito, pela ressurreição da esperança, tão bem cantada por Erich Fromm, no livro citado na epígrafe deste artigo. Não daquela esperança recheada de desejos e anseios, que não é esperança, mas cobiça de mais consumo. Não daquela esperança passiva, tipo salvação, em termos teológicos, ou revolução, em termos políticos, que nada mais são do que resignação e ideologias.Nas suas palavras: a esperança é paradoxal, não é nem uma esfera passiva, nem uma força irreal de circunstâncias que não podem ocorrer.
Muitos são os que se sentem conscientemente esperançosos, mas inconscientemente desesperados e vice-versa. Isso pode ser visto muito menos por suas declarações, do que por suas expressões faciais, maneira de andar e capacidade de reagir com interesse para algo diante dos seus olhos. Como acontece com todas as experiências humanas as palavras não são suficientes, para descrevê-la.
A esperança é um acompanhamento psíquico da vida e do crescimento humano. Quando ela desaparece a vida termina, de fato ou potencialmente. Ela está intimamente ligada à fé. A fé – palavra que vem do hebraico e significa certeza – não é, como pensam alguns,uma forma de crença ou conhecimento: fé nisto ou naquilo, mas a convicção sobre o que não foi ainda provado, o conhecimento da possibilidade real, a consciência da gravidez, na metáfora de Fromm. É certeza sobre a realidade da possibilidade, mas não é certeza no sentido da previsão indiscutível. Como os bebês, ela pode ser natimorta, pode morrer após o parto ou nas primeiras semanas de vida ... E a fé, é baseada na experiência da auto-transformação e se eu posso mudar, se eu me permito, os outros também podem.
A esperança acompanha a fé que não poderia ser sustentada sem o combustível da esperança. A esperança não pode basear-se senão na fé! Só vivemos plenamente quando aliada à esperança e à fé possuímos coragem, no sentido de firmeza. Firmeza como capacidade de resistência para não transformarmos nossa fé ou esperança em otimismo barato ou fé irracional. Firmeza enquanto destemor, como capacidade de dizer não, quando todos ao nosso redor querem ouvir e dizem sim.
A pessoa destemida não teme ameaças, e nem mesmo a morte! Não estamos nos referindo àqueles que não temem a morte porque não se importam com sua vida, porque viver para eles não significa muito... Referimo-nos ao destemor encontrado na pessoa plenamente desenvolvida, que se apóia em si mesma e à vida. Pessoa que superou a cobiça; livre, porque não se prende a nenhum líder ou ídolo - pessoa ou instituição; rica porque, ao esvaziar-se tornou-se oca, pronta para receber; forte, porque não é escrava de ninguém, nem mesmo de seus desejos.
Quando nos constituímos em ovo trazemos nos gens a esperança, a fé e a firmeza, mas quando a vida começa cá fora, as vicissitudes do ambiente começam a incrementar ou bloquear o potencial da esperança. Quando nascemos, não conhecíamos a invenção humana da mentira, com palavras, gestos e expressões. Logo aprendemos a dura lição, com nossos pais, nossos professores e líderes, em quem mais confiávamos: a maioria das vezes as palavras deles dizem exatamente o oposto do que querem dizer... E, infelizmente, há vezes em que a esperança é tão completamente destruída que um homem jamais poderá recuperá-la. É quando surge o endurecimento do coração.Entre os carentes, na total acepção da palavra, não é basicamente a frustração econômica que conduz ao ódio e à violência, mas o desespero da situação, das sempre repetidas promessas não cumpridas, isso sim ... Não é apenas o indivíduo que vive pela esperança! Classes, comunidades, nações, também! E, se perdem esse potencial, desaparecem, ou pela baixa vitalidade ou pela destrutibilidade irracional que desenvolvem, razão pela qual os maus políticos temem tanto as greves das classes organizadas em torno da esperança... Pensem nisto neste ano eleitoral...

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Nem de esquerda nem de direita, os jovens estão para além da política.

Gladis Maia

Todos os partidos são variantes do absolutismo. Não fundaremos mais partidos. O Estado é o seu estado de espírito.
Raul Seixas
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Tenho falado bastante sobre às características da nova geração, especialmente no tangente a sua nova linguagem. Mas os jovens não mudaram apenas a sua forma de falar, de pensar, de escrever, mudaram acima de tudo a forma de agir no mundo frente aos problemas estruturais a que assistem. Não só a que assistem, pois eles se entrelaçam na problemática, arregaçam as mangas e atuam em favor de soluções. Diferentes das gerações anteriores, que escreviam e pronunciavam discursos inflamados a favor dos oprimidos, eles vão à luta, companheiro.

Shephen kanitz, em artigo na Veja de 12/09/05, diz que lera uma reportagem que acusava a nova geração de “estar com nada”, preocupada somente com o futuro emprego e o umbigo. Os jovens não seriam mais como os de antigamente, engajados, na luta por uma grande causa: revolucionar o mundo. O autor, contrário a esta opinião, diz que há 30 anos atrás, 20% de seus amigos de faculdade - pelo menos os que se achavam mais inteligentes - eram de esquerda. Queriam mudar o mundo, salvar o Brasil, expulsar o FMI e acabar com a pobreza. Cabulavam as aulas e viviam no centro acadêmico com pôsteres de Che Guevara discutindo como tomar o poder. A idéia de ajudar os outros fazendo trabalho voluntário na periferia nem lhes passava pela cabeça...

Kanitz fala também que - para sua surpresa - quando foi fazer o mestrado em Harward, a totalidade de seus colegas era apolítica. Eles estavam lá para estudar, adquirir conhecimento, para poder ser úteis à sociedade e talvez ficar ricos. Por isso estudavam, para seu desespero, 20 horas por dia... Aliada a essa enorme carga horária de estudo, todos - havia muito tempo - faziam trabalho voluntário, um dos requisitos inclusive para a admissão ao mestrado, conta o administrador.

Passados trinta anos, num encontro com a turma de mestrado ele constatou que todos ficaram ricos, como pretendiam e que era a única exceção.Ricos que agora devotam boa parte do tempo às causas sociais e doam bilhões ao 3º setor. Muitos, já aposentados, gastam 25 horas por semana em conselhos, como o da Cruz Vermelha. A reunião de trinta anos com seus colegas da USP foi ainda mais surpreendente. O mais engajado na época, o que mais pregava a luta de classes, é hoje diretor de banco. Seu colega socialista, e menos radical, é o dono do banco. A maioria desculpou-se dizendo: “cansei de ajudar os outros”, “estou ficando velho, preciso me preocupar comigo mesmo.”

O articulista e muitos outros autores preferem a nova geração, que não é nem de esquerda, nem de direita, nem agüenta mais esta discussão. Não querem mudar o mundo, querem primeiro mudar o bairro para depois mudar seu estado e o país. Querem se tornar competentes para então mudar o mundo, paulatinamente, ao longo da vida.A nova geração está desencadeando uma revolução de cidadania, usando cérebro e o coração para o voluntariado, engajando-se no 3º setor, cada um fazendo a sua parte. Não ficou somente no discurso, partiu direto para a ação. A nova geração “está com tudo”, e deveríamos ficar orgulhosos por não se fazer mais jovens como antigamente.

Cláudia Wernec em “Sociedade Inclusiva: quem cabe no seu todos?” é da mesma opinião de Kanitz, a respeito da participação da nova geração em prol da cidadania. Define como protagonista juvenil o menino ou menina que toma a iniciativa de promover e gestar ações que transcendam a seus interesses pessoais ou familiares, sempre relacionadas à solução de um problema concreto.

Meninos que defendem a ecologia, fazem jornalismo escolar, rádio comunitária, catam lixo na praia ou organizam um mutirão no condomínio a favor da reciclagem de lixo. Percorrem comunidades carentes – ou não – fazendo prevenção de câncer de mama, distribuem camisinha, explicam como fazer sexo seguro, vão a asilos cozinhar nos feriados, percorrem bares de madrugada convencendo outros jovens a não dirigirem alcoolizados.

De etapa em etapa, esses jovens vão percebendo e confirmando que para garantir a sua sobrevivência como adultos precisarão tomar decisões cada vez mais solidárias. Bem melhor – seguramente - do que esperar de braços cruzados o dia em que a sociedade vai achar que aquele jovem cidadão está pronto para participar da vida pública. Exercendo seu lado protagonista o adolescente vai assumindo o compromisso de ser autor de seu futuro. É o parceiro ideal no processo de construção da sociedade inclusiva, pois a palavra-chave para entender o conceito de trabalho voluntário é solidariedade que significa troca e aprendizado conjunto e pressupõe responsabilidade social e cooperação. Pequenas atitudes podem mudar o mundo. Não importa o tamanho desse mundo. Esta é a diferença entre a juventude do ano 2000 e aquela que agitava bandeira nas décadas de 60 e 70. Ninguém é melhor ou pior. São contextos diversos. O momento histórico é outro. O momento sócio-político-cultural é outro.