sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Construir a identidade não é nada fácil, ainda mais para os nascidos gêmeos.



Gladis Maia

(...) é preciso tratar o relacionamento de gêmeos normalmente, sem enfatizar esse aspecto, pois vários deles acabam se perguntando se há algo errado por não conseguirem ler os pensamentos do outro ou por não terem pressentido que aconteceu algo ruim ao irmão (...) Patrícia Maxwell Malmstrom


Malmstrom é uma educadora norte-americana, que em “Criando Filhos Gêmeos” escreveu para além de uma obra literária ou de pesquisa, pois se vale de sua experiência como mãe,que entre quatro filhas, teve duas meninas gêmeas. Comenta que criá-las foi uma verdadeira aventura, porque as diferenças começaram já na gravidez. Comenta que as emoções vão do medo ao pânico, passando pela confiança, às vezes excessiva, que pode levar muitas mães a desperdiçar um tempo precioso de preparativos. É normal também os pais de múltiplos ficarem mais apreensivos que os demais com a gravidez e o parto e sentirem as preocupações financeiras intensificarem-se. E quando os bebês chegam da maternidade, tudo se torna superlativo, principalmente o cansaço e a falta de sono... Não dá para aplicar as mesmas regras básicas de cuidados com um só recém-nascido e depois dobrá-las ou triplicá-las. As mamães de múltiplos precisam levar em conta ainda que eles passam pelos mesmos estágios de desenvolvimento. Imaginem o impacto de diversos bebês com os dentes nascendo ou tentando dar os primeiros passos. A autora aconselha aos pais de gêmeos que busquem ajuda entre os amigos e familiares, criando uma verdadeira, boa e forte rede de apoio. Em paralelo a isso, sugere que a família torne a vida o mais simples possível em todos os aspectos. Enquanto os bebês forem pequenos, devem livrar-se de móveis ou objetos perigosos, criar espaços para que eles brinquem em casa, adotar rotinas familiares para as refeições e para dormir. Tentar manter pelo menos a mesma ordem de atividades. Se não for viável seguir os mesmos horários. Ao mesmo tempo, a família, em especial os pais, devem ser flexíveis o suficiente para adaptarem-se a situações diferentes, que ocorrem amiúde. Os gêmeos podem ter dificuldades de se enxergar como um ser separado do irmão. Para não reforçar essa sensação, mesmo que seja deliciosamente irresistível vesti-los da mesma forma, evite fazê-lo. Quando vestem roupas iguais, eles se tornam 'os gêmeos' no grupo, explica. Se por um lado, ajuda-os a se sobressaírem como indivíduos, leve em conta que vestir-se é uma das primeiras atividades que permitem às crianças fazer as suas escolhas pessoais. Isso é um importante passo para a independência do relacionamento com o outro. Sem falar que roupas diferentes contribuem para reduzir as confusões que as pessoas fazem de troca de identidade. Na escola, é melhor que gêmeos fiquem em salas separadas?Não há regra. A separação física não é necessária para o desenvolvimento da individualidade. “Pela minha experiência, se não há uma recomendação clara para separá-los, é melhor que fiquem juntos na pré-escola e no ensino fundamental. Cada caso precisa ser avaliado todo ano por pais e professores. Também é preciso ouvir os próprios gêmeos, se eles já tiverem idade suficiente”,diz a autora. Na tentativa de fazer 'o que é certo para os gêmeos', como deixá-los em classes separadas, pais e professores podem estar criando um efeito oposto ao desejado, como aumentar o grau de preocupação de um em relação ao outro, sobretudo em novas situações. Juntos, eles podem ficar até mais relaxados e prestar mais atenção ao que está acontecendo à sua volta. É necessário sempre comprar em dobro coisas como brinquedos?Até que as crianças tenham idade para desenvolver gostos mais diferenciados, o ideal é sim. Dê a eles um exemplar de cada brinquedo, especialmente aqueles de uso individual como triciclos. Se você optar por dar a eles dois brinquedos bacanas, mas diferentes, correrá o risco de que os dois gostem do mesmo. Isso em sido desastroso em muitos casos. Um sempre acaba achando o brinquedo do outra o melhor presente... Decepcionam-se se não conseguem trocar os presentes entre si. Quando o conteúdo é igual parece que eles respiram aliviados por poderem ficar com os próprios presentes. No caso de ser um único presente para as crianças, o conselho é evitar cartões com os dizeres: 'Aos Gêmeos'. Isso deveria ser banido!!! Os gêmeos, como quaisquer irmãos, são obrigados a aprender a compartilhar muita coisa. Mas, convenhamos, ninguém precisa dividir até o cartão! A educação dos gêmeos deve ser especial, principalmente, se forem do mesmo sexo. Devem-se evitar sempre comparações ou preferências para não estimular a rivalidade entre eles. O importante é que, apesar de terem compartilhado a mesma gestação, são crianças super diferentes, com humores, vontades e ritmos bem distintos. É verdade que os gêmeos possuem uma percepção extra-sensorial e podem ler os pensamentos um do outro?As pesquisas até hoje descartam essa possibilidade. Mas evidências empíricas sugerem que muitos deles são tão ligados entre si que se tornam capazes de completar as frases e de prever as intenções do outro.

O conselho da expert – autora do livro e de gêmeos - é que os pais devem construir um relacionamento especial e individual com seus filhos, incentivando interesses e talentos diferentes,sem comparação, cada um tem o seu tempo! Planejar atividades separadas. Descartar nomes parecidos e fazer cortes de cabelo diferentes. E, principalmente: evitar se referir a eles como 'os gêmeos'. E, cuide de um detalhe, foto sem legenda pode virar um mistério para todo o sempre... Crie o hábito de marcar os nomes atrás das fotos. E no aniversário, não economize: cante Parabéns duas vezes, faça dois bolos e coloque duas velas. Ficará bonito, divertido e eles vão adorar!

domingo, 20 de janeiro de 2008

Desempenho escolar, uma questão sempre atual e controvertida.

Gladis Maia
Não faça os meninos aprenderem pela força e pela severidade; ao contrário. Conduza-os por aquilo que os diverte, para que possam descobrir melhor a inclinação de suas mentes.
Platão,in A República, VII.
Muitos pais, temendo o futuro de seus filhos, preocupam-se com os seus estudos, mas esquecem - ou não se dão conta - de que para elas, as crianças, o futuro significa amanhã, ou no máximo daqui a alguns dias. Segundo o psicanalista Bruno Betelheim, autor de, entre outras obras, Uma Vida para seu Filho, mesmo o término do período da vida escolar delas, para não se falar em sua vida adulta, está a uma eternidade de distância, incompreensível e inimaginável.
E, exatamente porque a criança não tem compreensão do futuro é que o presente tem suma importância para ela. A insatisfação de seus pais significa muito para ela, porque acontece no presente, hoje, enquanto que, a origem desse descontentamento – a tal preocupação com o futuro – não tem sentido para ela.
O psicanalista defende que para a maioria das crianças é muito importante que seus pais se interessem por seu aprendizado, mas esse interesse deve voltar-se para o que acontece diariamente, pois é assim que a criança vive e é assim que entende a vida.
O ingrediente essencial para o êxito da maioria das crianças na Escola é uma relação positiva com os seus pais e com o envolvimento deles em assuntos intelectuais. A criança deseja ter aceso a tudo o que é importante para aqueles a quem mais ama na vida: seus pais! Quer aprender mais sobre as coisas que significam tanto para eles, também deseja agradar-lhes, obter sua aprovação - agora mesmo - assim como a da professora e a de outras pessoas que também são importantes para ela. Aplicar-se aos estudos parece-lhe um modo relativamente fácil de obter tudo isso. Evidentemente que isto ocorre quando são considerados padrões de comportamento tidos como normais.
Como afirma Betelheim - que durante sua reconhecida carreira como terapeuta tratou de inúmeras crianças – quando elas se saem bem nos estudos são imensamente recompensadas. Primeiro com as boas notas, depois com o contentamento dos pais, a estima dos professores, o reconhecimento dos colegas e de outras pessoas. Portanto, se algumas delas possuem os requisitos necessários para se saírem bem na Escola e mesmo assim fracassam, deve haver razões muito mais poderosas do que as que envolvem o êxito e suas recompensas, para que elas optem pelo fracasso.
Para entendê-las, devemos encarar a aprendizagem por uma perspectiva a partir da qual o fracasso parece mais desejável do que o sucesso. Se pais e professores tentassem ver as coisas pelo prisma da criança, ao ponto de sacarem o porquê da escolha da criança, entenderiam seu raciocínio e o considerariam lógico.
O psicanalista ilustra essas idéias com um estudo um estudo de caso, que resumo a seguir.Trata-se de uma adolescente cujos pais eram muito ambiciosos, professores com uma carreira acadêmica de sucesso e, por isso mesmo, atribuíam grande importância aos estudos dos filhos. Ela porém era uma aluna mediana, diferente do irmão mais velho que era realmente estudioso, mas costumava sair-se razoavelmente na Escola. Eis que de repente reprovou em todas as matérias e passou a desinteressar-se pelos estudos, para desespero da mãe que tentava dar-lhe bons livros, controlar o tempo que ela via TV e a reprovava, aberta e severamente, na frente dos inúmeros amigos com quem dedicava-se à ociosidade. Nem a mãe nem os professores achavam a luz no fim do túnel, não entendiam o porquê do comportamento da menina.
A mãe enfim pediu socorro profissional que custou a dar resultados, já que tudo informava ao terapeuta, menos que separara do marido, em meio ao problema. Ela esquecera de falar... Ou melhor, a dor não a deixava falar no assunto, mas mesmo assim não lhe ocorrera que a menina poderia ter razões válidas para comportar-se como vinha fazendo. Na sua concepção a indolência e a busca de divertimento da menina pareciam explicações suficientes.
Se a mãe tivesse partido da convicção de que a filha teria tão bons motivos para as suas atitudes quanto ela para querer vê-la lendo boa literatura... Ou seja: a primeira sentia-se na obrigação de zelar mais pela filha, após a separação, e a menina achava que se fracasse em todas as matérias, não apenas numa ou noutra, o pai retornaria para a família, já que valorizava tanto o êxito escolar dos filhos.
Ela era esperta o bastante para saber que se continuasse a ter a média na escola seu pai interpretaria isso como um sinal de que estava tudo bem, apesar de sua saída de casa, não havendo portanto necessidade de ele voltar. Seu fracasso total, coisa que nunca ocorrera antes, poderia preocupá-lo a ponto de fazer as coisas voltarem a ser como eram antes.
Mesmo que não percebamos de imediato, muitas vezes atitudes completamente diferentes podem ter o mesmo objetivo, como no caso da menina e de sua mãe. Ambas queriam chamar a atenção do pai/marido. Portanto, a nós mestres, cabe-nos a escuta, a observação mais amiúde, quando estranhas coisas parecem começar a ocorrer entre as quatro paredes de aula...
Com ou sem razão, por vezes, todas as crianças sentem exatamente isso que essa menina sentiu: que seus pais estão muito mais interessados em outras coisas do que nelas. Por isso é tão importante o predomínio da aprovação dos pais e dos professores para o que a criança faz. Só quando ela se sente segura dessa aprovação é que está apta a suportar críticas ocasionais a seu comportamento, do contrário sofre muito, chegando às vezes a se desestruturar.

sábado, 19 de janeiro de 2008

Eles são da geração pós-TV e aprendem diferente de nós - II parte



Gladis Maia
O que a música nos oferece é a aguda
tomada de consciência da morte dos
conteúdos. G. Berger.

Entre os pós-gutembergueanos - os que se expressam através da linguagem audiovisual e não da escrita - fala-se mais do que se escreve. Vê-se mais do que se lê e sente-se antes de compreender. Enquanto um livro é redigido com distanciamento, um script é composto no calor da criação. Isto é uma diferença básica.
Na linguagem audiovisual os ruídos lançam o ouvinte dentro do lado concreto de uma situação, a música cria um clima, a imagem, ao mesmo tempo que fixa, leva para longe. A palavra estrutura o discurso. Nesta linguagem a estética e a capacidade de empatia são fundamentais, mais do que a reflexão. Ela apela primeiro aos sentidos, depois à inteligência. A linguagem não pode ser rebuscada, literária, tem que ser popular, dialogada, para aproximar.
Acompanhar as mídias é viver no drama: das notícias, dos filmes policiais, dos jogos inacabados e das dramatizações.É o império da anormalidade, do sensacionalismo! Frenesi de pressa e consumo desenfreado de neurônios. No telejornalismo, é puro drama, ação. Uma ação que se alimenta de acontecimentos cuja força é aumentada, ou, de simples pormenores que conseguem se tornar chocantes e ocupar todo o campo da consciência.
A composição audiovisual não se desenrola como uma história regular de trás para frente. Nem é didática. Não se apresenta como uma divisão da realidade, em partes articuladas, com lógica aristotélica. Não é sintética, partindo de um visão de conjunto para mostrar ou analisar, sucessivamente, os pormenores. Ela se apresenta em flashes, aparentemente sem ordem, num fundo comum. As imagens parecem-nos lançadas ao rosto. Mas sob essa aparente desordem, pode reinar uma rigorosa ordem subjetiva.
As queixas dos pais, dos professores e dos especialistas entrevistados na pesquisa de Babin e Kouloumdjian, já citda na I parte deste artigo, não deixam de ser similares às apresentadas pelos educadores brasileiros, sobre seus alunos. Falam da dificuldade de compreensão de vocabulário; do uso de linguagem oral nas redações; de frases tipo slogan ; que a página escrita não tem consistência, nem permanência, como se fora um programa de televisão; não consideram mais a ortografia, escrevendo como se pronunciam as palavras; só conseguem guardar da dissertação uma palavra-chave, uma informação; textos com abreviações estranhíssimas, repetições.
Evidentemente que contribuem para isso não só a TV, o cinema, mas a falta de leitura, a carência do meio social, o não uso de dicionário, apontam os educadores. Os jovens de hoje em dia são essencialmente visuais, eles lêem o que podem visualizar, e se desinteressam por livros demasiados conceituais. Se eles não conseguirem imaginar as idéias, não compreendem o texto. Da mesma forma, a fala é cada vez mais sensorial e visual.
A geração da televisão exprime o que vê e ouve, da maneira como vê e ouve. Há muita dificuldade para exprimirem idéias que não tenham raiz sensorial, ressonância emocional ou contorno visual.
Os autores estão cobertos de razão, quando dizem que o parece ser sem pé nem cabeça é assim, considerando-se a organização linear do discurso. Na realidade, na linguagem audiovisual desses jovens o que conta é a visão do todo, e não as ligações entre as partes desse todo. As distinções e as articulações do discurso desaparecem em benefício de uma imagem global. Há o predomínio da visão subjetiva e global.
Nesse tipo de linguagem prefere-se um bom estímulo inicial a uma boa explicação, mas a correspondência, a prova do raciocínio vem depois. O que comanda as conexões numa conversa, por exemplo, é a preocupação da relação com o grupo, ou com o meio, mais do que com a lógica interna do discurso.
A própria imagem e a experiência das relações é mais importante do que o discurso. É essa a ordem que preside as seqüências dos telejornais. Se vai de notícia a notícia, sem lógica aparente, e é o telespectador que liga os pedaços, se pelo menos o conjunto lhe deu alguma experiência unificada. Todas essas influências fazem com que os jovens sintam a necessidade de uma outra linguagem, mais livre, mais imaginativa, mais rápida.
Como guardar o essencial da aquisição de Gutemberg – a escrita - e, ao mesmo tempo, assumir os novos modos e valores da linguagem audiovisual? É este o desafio que a sociedade atual, e, em particular a Educação, precisa aceitar! Se os jovens forem abandonados à sua linguagem - com a força interna de desordem e de desagregação que carrega consigo – o assassinato das línguas nacionais cultas ocorrerá em breve, muito em breve, por este planeta à fora. Porém, recolocá-los dentro do discurso literário tradicional, com o padrão culto de linguagem – em raríssimas exceções – será impossível.
Conforme os autores, com os quais concordo na íntegra, é necessário que se exija, pelo menos na escola, às formas de linguagem para as quais os jovens têm, ou tem demonstrado atualmente um talento quase espontâneo, uma certa linguagem publicitária, digamos. É imprescindível que estejamos abertos à inovação e mais permissivos à transição, pois com o passar dos tempos o novo reinará e já será velho novamente...