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domingo, 13 de junho de 2010

BONS PROFESSORES SÃO MESTRES TEMPORÁRIOS, PROFESSORES FASCINANTES SÃO INESQUECÍVEIS


“...Os professores do mundo todo estão adoecendo coletivamente. Os professores são cozinheiros do conhecimento, mas preparam o alimento para uma platéia sem apetite. Qualquer mãe fica um pouco paranóica quando seus filhos não se alimentam. Como exigir saúde dos professores se seus alunos não se alimentam? Como exigir saúde dos professores se seus alunos têm anorexia intelectual? É por causa da saúde deles e de seus alunos que a educação tem de ser reconstruída.” Augusto Cury


          Augusto Cury em Pais brilhantes & Professores fascinantes comenta que a tarefa de educar se compara a de um artesão da personalidade, um poeta da inteligência, um semeador de idéias, mesmo que a Educação esteja passando por uma crise sem precedentes na História da humanidade. Num contexto onde somos ao mesmo tempo criadores e vítimas do sistema social que inventamos, numa sociedade onde o ter e não o ser , a estética e não o conteúdo, o consumo e não as idéias são o mais importante, mais do que nunca os educadores, apesar de suas dificuldades, são insubstituíveis. A gentileza, a solidariedade, a fraternidade, a ética, a tolerância,a inclusão, os sentimentos altruístas, enfim, todas as áreas da sensibilidade não podem ser ensinadas por máquinas, e sim por seres humanos, por mais que a tecnologia venha a se superar.
         Dentre as incumbências de um professor fascinante, está a de educar a emoção, estimulando o pensar antes de reagir,o não ter medo de ter medo, incentivando o aluno a ser autor de sua história, sabendo filtrar os estímulos estressantes e trabalhando não apenas com fatos lógicos e problemas concretos, mas também com as contradições da vida. Assim agindo poderemos poupar lágrimas,evitar doenças psíquicas e até suicídios.Não teríamos os psicopatas, os insensíveis, que machucam e não medem as conseqüências dos seus atos, por que nada sentem... Os hipersensíveis, que se doam além dos limites, mas que não possuem proteção emocional para si mesmos. Os alienados, que não ferem, mas no entanto não querem nada com nada, sem metas, sem futuro, sem sonhos, deixam-se levar pela vida....
          A escola não tem conseguido educar a emoção, Precisamos formar jovens que tenham uma emoção rica, protegida e integrada.
Além de educar a emoção, precisamos ensinar os alunos a serem pensadores e não repetidores de informação. A educação clássica, transforma a memória num banco de dados, ocupando um espaço precioso com informações de pouco uso ou mesmo inúteis. Um bom professor se preocupa com as notas dos seus alunos, já um professor fascinante se preocupa em tranformá-los em engenheiros de idéias.
Cury alerta que os professores - sempre tendo em mente a SPA , Síndrome do Pensamento Acelerado – deverão também proteger sua emoção diante dos conflitos dos alunos. A melhor resposta nestas horas é não dar resposta alguma. É o silêncio! Respire fundo e surpreenda a classe com gestos inesperados. Leve-os, com suas palavras e coração aberto a pensar, a mergulharem dentro de si. Não é fácil, mas é possível! Com a emoção tensa fecha-se o território de leitura da memória, obstrui-se a construção de cadeias de pensamento e agimos por instinto, não com a inteligência, mas como animais.
Leve seus alunos a explorarem o desconhecido para não terem medo do fracasso, mas somente medo de não tentarem. Novas experiências propiciam crescimento intelectual e geram flexibilidade, Só não muda de idéia quem é incapaz de produzi-las. Professores fascinantes são promotores de auto-estima. Dão atenção especial aos alunos tímidos, aos desprezados pelo grupo, pois percebem que estes poderão ficar encarcerados em seus traumas.
                       E ATENÇÃO...
Cury aponta 7 pecados capitais cometidos entre os educadores. Corrigir publicamente um aluno é o primeiro deles, porque pode gerar um trauma inesquecível que controlará a vítima por toda a sua vida. A pessoa que erra deve ser mais valorizada do que o erro. O segundo pecado é expressar autoridade com agressividade. O terceiro é ser excessivamente crítico, o que obstrui a infância ou adolescência. Punir quando se está com raiva e colocar limites sem dar explicações é o quarto pecado. O quinto, é ser impaciente ou desistir de educar, não acreditando nas potencialidades do aluno. Os alunos insuportáveis é que testam o nosso humanismo, pois por trás de cada aluno arredio ou agressivo há uma criança implorando afeto. O sexto pecado é não cumprir a palavra dada. Perde-se a confiança e confiança perdida dificilmente é restaurada... E o sétimo, e maior pecado cometido pelos educadores, na concepção de Cury, é a destruição da esperança e dos sonhos dos nossos alunos.
Os jovens que perdem a esperança têm enormes dificuldades para superar seus conflitos, por menores que sejam. Os que perdem seus sonhos são opacos, não tem brilho, gravitam em torno de suas misérias emocionais e nada produzem. Não esqueçamos que, como canta Augusto Cury, “Os psiquiatras, os médicos clínicos, os professores e os pais são vendedores de sonhos. Uma pessoa só comete suicídio quando seus sonhos se evaporam, sua esperança se dissipa”. Sejamos, pois, conscientes do que vendemos nas nossas salas de aula ... Pensem nisso! Namastê!

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

O DESAFIO É: APRENDER A VIVER COM UMA APRENDIZAGEM CIDADÃ.




Gladis Maia

Muitos professores estão instalados em seus hábitos e
autonomias disciplinares. [...] como lobos que urinam para marcar seu território e mordem os que penetram.


O autor da epígrafe deste artigo, Edgar Morin – sociólogo francês, autor de A Religação dos Saberes, Ciência com Consciência, entre outros títulos – aborda, em “A Cabeça Bem-Feita: repensar a reforma reformar o pensamento”, uma não tão velada crítica aos saberes estanques, compartimentados em disciplinas, tais como se apresentam na contemporaneidade nos currículos escolares.


O livro apresenta - em poucas e complexas páginas - idéias a respeito de uma reforma de ensino que demanda para o seu sucesso também uma reforma na cabeça dos reformadores.


Morin acredita que os problemas do limiar do século XXI (a obra é de 1999), cada vez mais transnacionais e planetários, reclama uma inter-poli-transdisciplinaridade entre os saberes.


Para o autor, os desenvolvimentos disciplinares das ciências acarretaram a hiper-especialização corrente em nossos dias, produzindo não só conhecimento e a elucidação, vantagens para a divisão do trabalho, mas o despedaçamento do saber , ao se fechar em si mesma, sem permitir sua integração em uma problemática global ou em uma concepção de conjunto do objeto de estudo,seja qual for ele.


A organização disciplinar, nascida no século XIX, com a formação das universidades modernas e desenvolvida crescentemente no século XX, com o impulso da pesquisa científica, a par das grandes descobertas, trouxe ao ensino a incapacidade de articulação dos saberes e o atrofiamento da qualidade fundamental da mente humana, ou seja, sua aptidão para a contextualização e integração.


Trouxe ainda o desafio da expansão descontrolada do saber. Nas palavras do ensaísta francês: “O crescimento ininterrupto dos conhecimentos constrói uma gigantesca torre de Babel, que murmura linguagens discordantes. (...) em toda parte, nas ciências como nas mídias, estamos afogados em informações. O especialista não chega sequer a tomar conhecimento das informações concernentes à sua área”, dificultando, conseqüentemente, a integração de novos conhecimentos para a condução de nossas vidas.


Essa falta de percepção global enfraquece o senso de responsabilidade e, por conseqüência, a solidariedade. Cada um tende a responsabilizar-se por sua tarefa especializada. Ninguém mais conserva o elo orgânico com a cidade e seus concidadãos.


Enquanto o expert perde a aptidão de conceber o global e o fundamental, o cidadão perde o direito ao conhecimento, muito mal compensado pela sua vulgarização na mídia.


Morin levanta também a problemática histórica e cabal da necessidade de uma democracia cognitiva, pois quanto mais técnica torna-se a política, mais regride a competência democrática.


Autoridades em ensino parecem desconhecer que o desenvolvimento das aptidões gerais da mente permitem o melhor desenvolvimento das competências particulares ou especializadas.


Ele denuncia também que o livre exercício da curiosidade( faculdade comum e mais ativa na infância e na adolescência), a arte da argumentação e da discussão, a valorização do pensar bem, a reflexão sobre os conhecimentos científicos, a serendipididade ( arte de transformar detalhes aparentemente insignificantes, em indícios que permitem reconstruir toda uma história) estão quase todo o tempo fora dos trabalhos, durante a Escola Fundamental e Média.


O ensaísta esclarece que os atributos de um ensino educativo acima descritos são geralmente desprezados, em nome de uma autodisciplina e bom comportamento infecundos e de uma acumulação de conhecimentos, também estéril.


Como esclarece o autor, o conhecimento comporta, ao mesmo tempo, separação e ligação, análise e síntese. Nosso ensino tem privilegiado a separação, em detrimento da ligação, e a análise, em detrimento da síntese. Sendo que é um imperativo da Educação contextualizar e globalizar os saberes: reconhecer a unidade dentro do diverso e o diverso dentro da unidade.


A cultura das humanidades – que favorece a aptidão para a abertura a todos os graus e grupos de problemas – aliada à cultura científica, numa “Educação para uma cabeça bem-feita”, pode promover a capacidade , ao longo das diversos níveis de ensino, para se responder aos formidáveis desafios da globalidade e da complexidade na vida quotidiana, social, política, nacional e mundial, na sua visão.


Diz que o ensino contemporâneo, ao tender ao programa, está defasado, porque a vida exige estratégia e, se possível, serendipidadade e arte.
A estratégia opõe-se ao programa, ainda que possa comportar elementos programados, pois o programa só funciona em condições externas estáveis; a menor contrariedade desregula sua execução. Já a estratégia procura, incessantemente, reunir informações colhidas ao acaso, durante o seu percurso. A estratégia, ao trazer a consciência da incerteza que vai enfrentar – lembre que no Brasil estamos em tempos de implantação da inclusão em nossas escolas – encerra uma aposta, exigindo fé e esperança.


Percebamos que, já é mais do que hora da Educação decidir-se por um ensino que realize a convergência de vários ensinamentos, mobilizando diversas ciências e disciplinas para enfrentar a incerteza do mundo que muda, numa velocidade vertiginosa, em todos o sentidos.


Em sendo assim, a Educação deve - acima de tudo - passar a contribuir para a auto-formação da pessoa, ensinando ao aluno a assumir sua condição humana, ensinando-o a viver e se tornar cidadão solidário e responsável pelo seu semelhante, pela sua comunidade próxima, pela sua pátria, continente, planeta e até mesmo o cosmo. E, para que tudo isto aconteça, mais do que nunca é preciso amar, pois, “Onde não há amor, só há problemas de carreira e de dinheiro para o professor; e de tédio, para os alunos.” Particularmente, gostei da leitura e a recomendo. Vale a pena conferir!Namastê!

quinta-feira, 7 de maio de 2009

COMO, EM PLENO SÉCULO XXI, DEIXAR DE DAR VISIBILIDADE ÀS DIFERENÇAS NA ESCOLA ?





Gladis Maia

Um dia, escola será só escola. Nem especial, nem
integradora ou inclusiva. Sociedade? Sociedade. E ponto.”
Cláudia Werneck, in Sociedade Inclusiva:
quem cabe no seu todos?, WVA, R.J., 1999.



Através da Resolução 45/91, de 1990, durante a Assembléia Geral das Nações Unidas, a ONU documentou o ideal de uma sociedade inclusiva, que, segundo esta mesma resolução, deverá ser implementada, no mundo todo, até o ano de 2010.

No Brasil, dentro destes parâmetros, a nova LDB, Lei de Diretrizes e Bases da Educação, também prevê a construção da escola inclusiva, desde o ano de 2007, juntamente com outras determinações estabelecidas pela lei em questão.

Vemos então que - no papel pelo menos - esta dívida milenar com os excluídos, de todas as categorias, começa a ser paga. A dívida da diferença entre o que a sociedade oferece e o que deveria oferecer aos seus cidadãos em termos de: Saúde, Trabalho, Educação, Comunicação, etc...

Felizmente crescem avassaladoramente no mundo todo e mesmo no nosso meio, do Iapoque ao Chuí, além das ONGs , os grupos de protagonismo juvenil, embora pouco noticiado na mídia. Muitos são os jovens que se dispõem a trabalhar voluntariamente por causas sociais, as mais variadas. Há luz no fim do túnel, apesar da escuridão gerada pela violência que também cresce formidavelmente ...

Aliás, nem sei se cresce tanto ou se é a insistência com que este tema é veiculado na mídia, que nos transmite esta impressão... Percebo que as matérias que tratam deste tema são transmitidas com muitos holofotes e lentes de aumento – objetivando talvez, além de ibope (porque o ser humano em geral adora uma tragediazinha, desde que não seja na família dele), nos atemorizar e vender grades, cadeados, armas e congêneres...

Na verdade não o soubemos com certeza, trata-se apenas da observação e de alguns estudos de intelectuais preocupados com este assunto e outros semelhantes. Mas sabemos que se as grandes organizações da comunicação social brasileira fossem mais sérias, mais responsáveis e seguissem o exemplo de centenas de rádios comunitárias, pasquins e revistas alternativas - ecológicos, digamos assim – espalhados por este país continental, seriam elas também Arauto de um Novo Tempo, Abre-alas, Porta-bandeiras dos Direitos Humanos, dos Direitos Culturais, dos Direitos Educacionais... Se constituiriam na Comissão de Frente da Vida Humana, com todas as Alas desfilando com alegria e ginga, repletas de esplendor, pois quem não tem o seu brilho próprio, mesmo que muitas vezes ofuscado pela indiferença ou pelo desprezo dos seus semelhantes?!

A construção de um mundo inclusivo não deve ser luta restrita dos excluídos e das famílias de pessoas com deficiência... A diversidade humana no seu todo e, mais especificamente a deficiência, podem, e devem, se constituir em uma estratégia catalisadora da Justiça Social e do fomento das redes de pessoas, de profissionais, de conselhos, de entidades governamentais e não-governamentais, de instituições em geral, em prol de um mundo melhor, onde reine a harmonia, a paz, o amor, o respeito às diferenças, a ética, enfim o bem-estar geral de todos.

A escola brasileira precisa deixar de refletir, de reproduzir a nossa sociedade excludente, visualizada pelos escandalosos índices de reprovação e de evasão escolar...

A escola brasileira precisa tornar-se um bem público na acepção plena do termo, ou seja, servir a todos que a procuram, sem distinção, priorizando parcerias éticas entre crianças e adolescentes em geral, reproduzindo a humanidade como ela é, em toda a sua extensão. A escola inclusiva é a saída para a crise do Sistema de Ensino Brasileiro, de índole segregacionista e competitivo.

Precisamos, enquanto educadores, nos conscientizar de que talvez a raiz desta incompetência para resolver os problemas da educação brasileira de educar para a vida, para a cidadania, esteja localizada na farsa dos contextos educacionais, à semelhança de seus conteúdos desenvolvidos e valores cultivados, tanto na escola regular, como na especial.

A vida não é assim: só doentinhos e com problemas de aprendizagem nas APAES e classes especiais, pobres e pouco inteligentes nas escolas públicas, ricos e inteligentes nas escolas particulares... A vida é tudo isto junto e muito mais, é polifônica e multifacetada!

Nós os professores, a olhar para esta sociedade preconceituosa, excludente, temos um quinhão de culpa - nada pequeno, inclusive - pois ajudamos a formar estes cidadãos de quinta categoria que aí estão, tais quais os políticos inescrupulosos que ao invés do bem público, pensam no seu próprio bem, como se os votos que receberam da população lhe outorgassem o direito de se locupletar com o dinheiro arrecadado do suor dos trabalhadores, pois estes são os que menos sonegam impostos, que se não vem descontados de sua folha de pagamento, porque o salário é minguado, mas estão em cada produto que consomem...

Formar cidadãos, enquanto estudantes, não implica necessariamente trabalhar, ensinar - e praticar- ética, solidariedade, flexibilidade, intuição, sensibilidade, criatividade, entre outros valores, aliados à técnica e ao conhecimento acadêmico?

Se não é na Escola que devemos aprender a ser cidadão, aonde é então?

As dificuldades e limitações de cada aluno (reais e temporárias - ou não) não funcionariam como estímulo para o enfrentamento dos desafios da vida comunitária que transcendem o conteúdo e os demais ensinamentos que as salas de aula mal tem conseguido proporcionar aos alunos?

É difícil? É, muito! Até porque enquanto educadores temos que nos desnudar dos nossos preconceitos, dos nossos medos e receios de falhar, de não agüentar tanta dor tão perto de nós...

Mas lembrem-se que ninguém descansa de seus talentos, muito menos de suas deficiências – e as temos às vezes em número bem significativo - portanto, a sociedade em geral, e você que me lê especialmente , não tem direito ao descanso. À luta por um mundo inclusivo!Namastê!

sábado, 5 de janeiro de 2008

Receita para uma Educação Inclusiva: uma escola para todos aprenderem a aprender.


Gladis Maia

As crianças gostam de estar com outras crianças e se o propósito da escola é preparar as pessoas para a vida depois da escola, para a vida em comunidade, elas precisam dessa oportunidade. (...) Os jovens precisam aprender que a diversidade é positiva, tal como deixar de fumar ou usar drogas.
Gordon Porter, in terrasdabeira.com

Qualquer criança, em qualquer época de sua vida pode apresentar dificuldades de qualquer ordem, que podem afetar o seu processo de desenvolvimento, a sua aprendizagem, em qualquer nível. Cada estudante tem seu ritmo próprio de aprendizagem, com estratégias diversificadas, que implicam na sua visão própria, particular do mundo. É lícito, por isto mesmo, que cada aluno seja apreendido em sua singularidade, no seu todo; e não de forma compartimentada, em setores. Ele precisa ser reconhecido em suas peculiaridades e necessidades, durante a prática docente, que precisa ser vista como dimensão social da formação humana. A história de cada um , em particular, deve interessar ao grupo, deve ser respeitada enquanto possibilidade do homem, e não como determinismo, da mesma forma que a história, na maior amplitude da acepção do termo. Não há uma poção mágica, nem fórmula unificada de atuação, para que se implante a Escola Para Todos - pelo menos de imediato – mas, a título de estudo, reunimos algumas idéias obtidas em leituras a respeito do assunto e as dispusemos numa analogia, como se fôssemos preparar um saboroso prato, que, mesmo utópico, já começa a causar água na boca dos mais apaixonados pela Educação Inclusiva, como eu.

FAXINA

Todo bom cozinheiro sabe que antes de arregaçar as mangas para preparar suas deliciosas iguarias é saudável a realização de uma limpezinha na cozinha. No nosso caso, no espaço educacional. Portanto, a hora é de destruirmos, jogarmos na lixeira : todos os nossos preconceitos; a arrogância e a sisudez, com ares de intelectualidade; a desesperança, o pessimismo, as descrenças, o isolamento; os muros e paredes que separam a escola da vida lá fora; a evasão ; a reprovação; a formação de turmas por desempenho escolar; a competição entre alunos; a demarcação rígida das disciplinas e dos conteúdos programáticos; as folhinhas mimeografadas ou xerocadas que exigem respostas iguais ou semelhantes; os livros-textos, se servirem de guia único ao professor, que o utiliza tal qual bíblia nas igrejas ou templos; e exclusão causada pela diversidade cultural, social, étnica, religiosa, de gênero, etc. E, coloquemos, numa prateleira bem alta, longe dos olhos, para que só venhamos a utilizá-las em última caso, por absoluta necessidade do fazer pedagógico: as aulas expositivas; a memorização; e a rigidez seqüencial dos conteúdos programáticos.

INGREDIENTES

Reunamos então grandes porções de: ética, justiça e direitos humanos, para prepararmos um suculento molho. A seguir, separemos , para misturarmos depois, doses renováveis de : fé no porvir; valorização dos saberes e das identidades dos educandos; respeito às diferenças sociais, étnicas, religiosas, culturais e de gênero; liberdade; esperança; trabalhos em grupo; intuição; ciência; afeto; alegria; harmonia; entendimento; compreensão; muitas experiências teóricas e práticas ; disponibilidade para a escuta e para o diálogo; leituras; debates; discussões; observação; conhecimento; integração de saberes, através da interdisciplinariedade; e sensibilidade, sempre. E para temperar o nosso delicioso prato e torná-lo mais digerível, vamos usar pitadas , constantes, de : questionamentos; planejamento; desenvolvimento de habilidades e competências; muita reflexão; estudo; socialização; e convivência amorosa.

MODO DE FAZER

Utilizar os ingredientes em pequenas turmas de alunos com rendimento heterogêneo e professores com a formação inicial e continuada aprimoradas constantemente, integrados à família dos estudantes e à comunidade em que a escola se insere, através de projetos que gerem e se nutram de experiências de intercâmbio de idéias e ações.

MANEIRA DE SERVIR

Num ambiente limpo, bonito, bem cuidado, cheiroso, decorado com a arte das crianças, e , em meio à colaboração e a solidariedade entre alunos e professores, nas escolas, em casa, nas ruas, nos bairros, na sociedade como um todo, de tal forma que gere vínculos saudáveis não só entre os pares, mas entre toda a comunidade escolar, sirvamos, com carinho, nossa acalentada especiaria. E, bom apetite! Se já tentou preparar o prato, provou e gostou, ou está pensando em prepará-lo, muito obrigada, isto é um elogio. Porém, se achou indigesto, um conselho: diante dos insucessos, que porventura tenha tido na sala de aula – não se indague aonde e onde você vem e tem errado como educador ou educadora, pergunte-se pelos valores da sociedade em que vive e o que tem feito para mudá-los.


quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Ser diferente integra a condição humana, pois todos temos nossas singularidades.


Gladis Maia

Uma escola inclusiva não “prepara” para à vida. Ela é a própria vida que flui devendo possibilitar, do ponto de vista político, ético e estético, o desenvolvimento da sensibilidade e da capacidade crítica e construtiva dos alunos-cidadãos que nela estão, em qualquer das etapas do fluxo escolar ou das modalidades de atendimento educacional oferecidas.
Rosita Edler Carvalho (2004).


Ser diferente faz parte da condição humana, pensamos, sentimos e agimos de jeitos e intensidades diferentes, porque apreendemos o mundo de formas diferentes. Considerando-se isto, a escola inclusiva pressupõe não só a aceitação, mas o respeito e a valorização dessas diferenças nos alunos e de seus diferentes saberes e não–saberes.

Uma vez valorizada a diversidade devemos agir para que nossos alunos tenham experiências e saberes múltiplos. Na escola inclusiva não se terá mais a inquietação de responder se alguém aprendeu como o outro, mas de observar e acompanhar curiosamente o jeito inusitado e mágico de cada um viver, de cada um vir-a-ser, no seu tempo, cuidando, acolhendo, compartilhando diferentes jeitos de ser e de aprender.

Neste momento de discussão sobre o paradigma da Escola Inclusiva, há ainda muita confusão no ar, porque simplesmente muitos querem fazer crer que a idéia da inclusão é para e somente para os alunos da Educação Especial passarem para as turmas do ensino regular e, ponto.

Muitos pais de alunos “normais” se insurgem também contra a idéia, alegando que seus filhos serão prejudicados. Muitos pais de deficientes acham que os professores da escola regular não têm dado conta nem dos alunos “normais” e, que portanto não terão capacidade para lidar com seus filhos.

Ambos ignoram que a inclusão representa um resgate histórico do igual direito de todos à Educação de qualidade. A escola deve estar aberta aos que nunca tiveram acesso ao estudo, os portadores de altas habilidades (superdotados), os que - sem serem deficientes - apresentam dificuldades de aprendizagem e outras minorias excluídas, como é o caso dos negros, dos ciganos, homossexuais, índios e anões e que precisam nelas ingressar, ficar e aprender.

Quem se insurge contra a inclusão na escola parece ignorar, também, que é na diversidade que reside a riqueza das trocas que a escola propicia. Na heterogeneidade há a oportunidade de convívio com a diferença que - no mínimo - promove laços saudáveis e sentimentos de solidariedade orgânica.

Na escola inclusiva, da mesma forma, os professores têm oportunidade de por em prática os quatro pilares para a educação do século XXI, propostos pela UNESCO: aprender a aprender; aprender a fazer; aprender a ser; e aprender a viver junto.

A inclusão pressupõe a melhoria da resposta educativa da escola para todos, pois é considerável a produção do fracasso escolar, excludente por sua própria natureza. A escola inclusiva deve melhorar para todos, in-dis-tin-ta-men-te. Instaurada a inclusão, a escola deve tornar-se àquela que busca o desenvolvimento de todos, a partir das potencialidades humanas, críticas, participativas e autônomas. A escola deve ser pensada e construída como um espaço sadio de pluralismo de idéias!

Para que a escola inclusiva venha a dar certo, a sociedade precisa também evoluir. Evoluir da dimensão do particular para a comunitária, e desta, para a planetária, numa extraordinária dinâmica em espiral, ampliando cada vez mais a abrangência. Uma nova ética se impõe, conferindo a todos a igualdade de valor, igualdade de direitos – particularmente os de eqüidade – e a necessidade de superação de qualquer forma de discriminação por questões étnicas, de gênero, de classe social ou de peculiaridades individuais e diferenciadas.

E, mesmo que a escola inclusiva no Brasil ainda seja apenas um sonho, para que esse sonho vire realidade, num mundo de paz e de harmonia, ela precisa ser, além de ética, prazerosa, integrativa por princípio, e, promotora das condições necessárias para o desenvolvimento das potencialidades de cada um e de todos. Qual outro lugar, além da escola, é próprio para formar gerações que elejam, defendam e ajam de acordo com esses valores?

A escola inclusiva é a porta e a casa propícias para o desenvolvimento, tanto da solidariedade mecânica, como da solidariedade orgânica, na concepção de Durkheim, em seus estudos sobre a natureza dos laços sociais. A solidariedade, no primeiro caso, acontece de forma natural ou mecânica, a proximidade entre os seres humanos, o contato leva a isso. Já a solidariedade orgânica ocorre quando os indivíduos têm – ou adquirem – a consciência de que precisam participar para fazer a coletividade funcionar como um todo. Trata-se, portanto, de uma consciência coletiva que, segundo Durkheim, constrói-se pelos sentimentos e crenças comuns à média dos membros da coletividade, levando-os às formas de cooperação global.

E, porque sentimentos e crenças podem ser incentivados, especialmente num lugar que trabalha a formação do sujeito em desenvolvimento, a escola inclusiva é acima de tudo esse solo fértil para o desabrochar e o fomento da ética, da solidariedade e do bem comum.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

O saber tem que ser construído em meio à tecitura de redes intercomunicantes

Gladis Maia
Você não pode ensinar tudo a um homem; você pode apenas ajudá-lo a encontrar a resposta, dentro dele mesmo. Galileu Galilei.
A Escola da atualidade necessita ser mais flexível, ser inteira e representar a vida. O educador tem que lembrar que é professor de gente, não de matérias, de conteúdos, reprodutor do sistema que aí está, excludente por índole. A corrida atrás de resultados quantitativos tem que ficar para trás. A meta agora é a qualidade de vida, o aluno precisa mesmo é saber como se chega a resultados. A escola para todos tem que ensinar como pensar e não o que se pensa. Os principais problemas de nosso tempo não podem ser compreendidos isoladamente, mas vistos de forma interconectada e interdependente, sob o paradigma da hoslística.
A sociedade atual exige pessoas detentoras de tipos diferentes de criatividade, com diversos talentos, sobrepostos e maleáveis e mutáveis. Como um prisma de cristal, que distribui a luz num campo visual, a teoria das múltiplas inteligências de Perrenoud e a inteligência multifocal de Augusto Cury, poderiam servir de norte, entre outras, para serem aplicadas ao planejamento educacional, criando condições para a formação de pessoas melhor preparadas para era virtual, que se aproxima: holísticas, diferentes de nós, seus professores, que estudamos sob a égide de um ensino tradicional, de lógica aristotélica e linear.
Estas teorias podem nos ajudar a mostrar como levar o aluno do conteúdo acadêmico, que serve como suporte, até chegar às metas finais, permitindo que cada um adquira, do seu próprio jeito, através do seu próprio estilo individual de aprendizagem.
Se concordarmos que uma das funções da educação é a preparação das pessoas para o seu futuro, nunca esquecendo que a transformação da sociedade – que há de ser justa e ética um dia – passa necessariamente pela escola, neste momento, ninguém pode saber com precisão o que nos reserva o futuro, nem o mais próximo.
Não sabemos, por exemplo, das possibilidades da clonagem humana ou dos resultados do Projeto Genoma. Esta incerteza pode nos deixar paralisados, insatisfeitos com a maneira de construir o saber em nossas escolas. Mas, precisamos ter coragem para desafiar os erros e encontrarmos novas maneiras de fazer ou refazer a prática pedagógica.
Neste sentido, a sociedade contemporânea está passando por uma série de modificações estruturais, que nos obrigam a reavaliar aquilo que estamos fazendo na educação e tentar alinhar este esforço à realidade que existe fora da instituição acadêmica.
Algo que está claro para o futuro, não tão longínquo assim, é que muitas pessoas terão uma jornada de trabalho mais curta do que a atual e sobrará tempo para o lazer, talvez . E o que faremos? Imagino que: um educando exposto às experiências ecológicas, holísticas e grupais, numa escola pautada na ética, na participação colaborativa, poderá transformar não só a sua própria vida, mas o em torno.Ele terá condições de acrescentar mais a sua vida, em termos de prazer, crescimento emocional, respeito e sabedoria. O pequeno cidadão hoje - ou amanhã, adulto - estará apto a transformar a sociedade, começando com o respeito às pessoas que lhe são próximas.
Mas, afora os discursos bonitos, as escolas têm apresentado, em geral, espetáculos deploráveis, ao expulsarem os alunos do suas aulas e mesmo da escola, literal ou subliminarmente, através das notas ruins, das caras feias, das repreensões insistentes, porque determinados alunos não correspondem ao tipo padrão esperado...São os taxados de mal comportados, já que nossas escolas baseiam-se inteiramente em torno da noção de disciplina e de comportamento. Expulsos ou evadidos, essas crianças somam fileiras entre os excluídos, da escola, da sociedade, da vida...
E o pior, é que os educadores, na sua maioria, estão se sentindo abandonados, desamparados, com a falta de possibilidade em atender as demandas da escola, receber e tratar bem, as crianças e jovens em suas necessidades do cotidiano. Lá fora elas também não são satisfeitas, a família já não é a mesma, e todos sabemos, sua estrutura física e psicológica mudou. Todas as patologias e os desconfortos familiares – e há alunos que possuem dois, três núcleos familiares, outros nenhum - acabam chegando a escola, que está despreparada, não possui técnicos, nem disponibilidade para tanto ...
A violência escolar, tão em moda na mídia, poderia ser vista como uma denúncia da própria violência perversa do sistema educacional em nosso país, em muitos outros, mesmo no exemplar primeiro mundo, e sem tirar nossa responsabilidade: da nossa maneira de viver, que por vezes é demasiadamente desejante e exigente.
É real, que os professores são mal pagos, possuem cargas horárias escravas, estão estressados, com suas turmas abarrotadas de alunos e escolas mal cuidadas pelos poderes públicos, muitas vezes mal preparados em suas formações por tantos outros professores descontentes, numa roda viva incessante...Há que se concluir que não há muito lugar para pensar a dor do outro, do aluno que está muitas vezes ali precisando muito mais de afeto do que de lições... Fica difícil a tal escola para todos!
Mesmo a contragosto dos descrentes, daqueles que perderam a esperança, eu volto sempre ao meu jargão amoroso, afirmando que a Escola Inclusiva passa, necessariamente, pelo coração de cada educador que estiver envolvido com ela e que, de tanto abrir-se para o amor, conseguirá expandir frestas nos corações dos homens empedernidos, que estão com a caneta na mão para assinar os documentos necessários a efetivação das mudanças na escola e nos homens que estamos formando, que transformarão esta nação em algo de prodigioso.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Você tem algum amigo (a) diferente?

Gladis Maia

Escola é lugar de convivência e aprendizado universais. Universais, mesmo! Esta é a base das escolas inclusivas. Cláudia Werneck (1999).

No currículo da jornalista Claudia Werneck consta a edição de uma coleção de três livros chamada Meu Amigo Down, que colabora para uma ampla discussão sobre as diferenças individuais a partir da Síndrome de Down. A história aborda a chegada de um menino com a síndrome a uma escola regular. O sucesso foi tal, que após a 3ªed. da coleção, resolveu editar também ‘Um Amigo diferente?’.

Cláudia conta que passou por uma experiência decisiva ao falar da coleção ‘Meu Amigo Down’ nas escolas, públicas e privadas, por todo o Brasil: “... eu era torpedeada pelos alunos com perguntas e desabafos sobre ‘anormalidades’. Tornei-me a deixa para que abordassem assuntos que os afligissem e os deixavam curiosos. Fiquei aflita com a aflição deles. Daí nasceu ‘Um Amigo Diferente?’ , lançado em 1996.”

Este último livro consumiu-lhe cinco meses de pesquisa na qual teve a assessoria do consultor em reabilitação, Romeu Kazumi Sassaki, .segundo ela, “um livro dificílimo de ser finalizado” . Para escrevê-lo teve que conhecer o trabalho de grupos de ajuda mútua de portadores de paralisia cerebral, asma, doença renal, ostomia, anemia, hemofilia, artrite e outros. O texto foi submetido a representantes de cada uma dessas entidades e também a profissionais das áreas da Saúde, Comportamento, Reabilitação e Educação de vários lugares do Brasil. Muitas outras pessoas também foram consultadas sobre as ilustrações.

E antes de ser publicado passou por uma experiência piloto num CIEP do Rio de Janeiro, onde foi utilizado como livro-texto, em sala de aula. O CIEP estava em plena consolidação do processo de inclusão, à época.Durante uma semana várias turmas se dedicaram a fazer entrevistas para saber quem era de algum modo diferente nas suas famílias e vizinhança. Também sugeriram ilustrações para o livro, desenharam seus amigos diferentes e fizeram redações. Na ocasião a TV do Rio de Janeiro, da Rede Globo, interessou-se pela experiência e entrevistou os alunos numa reportagem de Ana Paula Araújo, com pauta de Tim Lopes. Criança e adolescentes, quase todos moradores da favela Nova Brasília, falaram de suas emoções e descobertas a partir das pistas do ‘Um Amigo diferente?’ .

O livro conta a história de um amigo que afirma ser diferente. A cada página o amigo imaginário vai dando novas pistas, atiçando a imaginação dos pequenos leitores, que vão se deparando com temas pouco abordados no dia-a-dia, doenças e deficiências. Das diferenças simples, como ter seis dedos nas mãos – e tornar-se o campeão de fazer cócegas, da rua – até as mais complexas, como quando o personagem levanta a camiseta e mostra o corpo estrelado que há dentro de si e pergunta: “Quem sabe o mistério esteja dentro do meu corpo?” . Essa é a dica para o professor falar de AIDS, de câncer, de hemofilia e por aí vai,explica a autora. Aprender sobre deficiências e doenças crônicas é aprender sobre cada ser humano, acredita a jornalista, que explica que é a oportunidade de conhecer-se melhor. As crianças nascem aptas a lidar com qualquer tipo de diferença. Sendo o cotidiano, com sua diversidade mais fantástico do que qualquer sonho ou imaginação, seria natural para as crianças crescerem reconhecendo a humanidade como ela é, e não como os adultos acham que deveria ou gostaria que fosse. “Muito cedo, no entanto, família e escola, em uma parceria maléfica e preocupante, começam a corromper a meninada. Insistem em dizer que a deficiência faz parte de uma quarta dimensão da vida. Em casa, o assunto não é abordado com naturalidade.”, diz ela. Concordo com a colega de profissão, pois as crianças têm o direito de se desenvolverem exercendo sua capacidade de reflexão, de decisão e de ação dentro de um contexto real.

domingo, 14 de outubro de 2007

E afinal, que país é o nosso?

Gladis Maia

Todas as crianças, jovens e adultas em sua condição de seres humanos, têm direito de beneficiar-se de uma educação que satisfaça às suas necessidades básicas de aprendizagem, na acepção mais nobre e mais plena do termo, uma educação que signifique aprender e assimilar conhecimentos, aprender a fazer, a conviver e a ser. Uma educação orientada a explorar os talentos e capacidades de cada pessoa e a desenvolver a personalidade do educando, com o objetivo de que melhore sua vida e transforme a sociedade.Marco de Ação de Dacar, abril de 2000.

É possível trabalhar em direção à Inclusão no Brasil quando milhões de crianças são excluídas da Escola por que se ‘comportam mal’ ? Por que ‘não aprendem’ ? Por que precisam trabalhar, para ajudar aos pais no sustento da família? Por que milhares delas vivem nas ruas - desse nosso continental país - longe da escola, onde deviam estar e aonde foram desprezadas ou maltratadas, muitas vezes?
Isso sem falamos das crianças com NEE, Necessidades Educacionais Especiais, que de certa forma são quase a maioria delas, em algum momento ou outro de sua aprendizagem ... Todos sabemos que as escolas e o sistema educacional não funcionam isoladamente. O que acontece dentro de seus muros é sempre reflexo da sociedade que impera fora dos seus portões. Os valores, as crenças e as prioridades da sociedade permeiam a vida e o trabalho no seu interior, até porque quem vivencia a práxis do ensino-aprendizagem é também cidadão desta mesma sociedade.
Cidadão este que sendo um idealista acabará indo de encontro às crenças e as atitudes daqueles que detêm o comando do sistema educacional. Irá de encontro à acomodação de muitos diretores e administradores de escolas e também dos numerosos professores desencantados - no e com - seu trabalho. Não é à toa que cresce o número de alunos desestimulados que lá encontramos.
O idealista no seio das escolas vai ter muito trabalho para por suas idéias em prática. No mínimo não será muito bem visto, pois a maioria, ao longo dos tempos, prefere a mesmice. O maior obstáculo para que as mudanças ocorram nestas atuais circunstâncias, está instalado em nossas mentes e em nossos corações. A tendência é a de subestimar as pessoas, rotulá-las, além de superestimar as dificuldades imaginando antecipadamente o fracasso.
Meditando sobre esses sentimentos, apresento aos leitores uma experiência de inclusão que segue seus rumos, com seus altos e baixos, mas acontecendo, há já bastante tempo na África. Experiência lá descrita como integração. Os dados foram colhidos da obra: Educação Inclusiva - Contextos Sociais, de Peter Mittler.
A experiência acontece em Lesoto, na África do Sul, um dos países mais pobres do mundo, com dois milhões de habitantes, pequeno, mas que vê a educação como prioridade. Lá uma comissão foi estabelecida para estudar as possibilidades da integração em 1987 e como parte de seu compromisso com a Educação para Todos, lançou um programa-piloto, em 1993. Nele, dez escolas de Ensino Fundamental rurais incluíram todas as crianças com deficiências nas salas de aula regulares. Em torno de 300 crianças com deficiência participaram do programa-piloto, num total de 9 mil matriculadas.
Para a execução do processo, quase todos os professores das escolas selecionadas passaram por uma capacitação intensiva de três semanas que, segundo pesquisas posteriores, de Mittler e Platt, se tornaram mais confiantes. Os autores, que tiveram oportunidade de visitar estas escolas, comentam que, na maioria das vezes, embora as classes fossem de 50 a 100 ou mais alunos, as crianças portadoras de deficiência aparentavam estar social e educacional-mente integradas.
Os autores explicam que os professores se valiam de uma série de estratégias de ensino, incluindo diferenciação curricular, trabalhos em grupos pequenos, ensino individual e apoio aluno a aluno. Valiam-se também de estratégias práticas para tornar os alunos portadores de deficiência sensoriais e físicas capazes de terem acesso imediato ao professor e ao quadro-negro, sem estarem separados dos outros estudantes. Referem que durante todo o tempo, os estudantes com necessidades especiais estavam totalmente engajados em alguma atividade, assim como seus colegas estavam.
De acordo com as observações dos autores da pesquisa, pode-se concluir que as habilidades dos professores provavelmente já faziam parte da qualidade de ensino dos professores anteriormente à implantação das turmas inclusivas, pois não seria a rápida capacitação que os prepararia para agirem assim, tão desenvoltos, como podemos observar nas palavras dos pesquisadores: “os professores com 50 ou 100 estudantes na sala de aula nunca perderam a chance de incluir todos os alunos nas atividades de classe. O fato de os alunos parecerem altamente motivados para aprender e apoiar um aos outros com naturalidade, forneceu um fundamento natural e sólido ao programa, que já se estendeu à ampla gama de diversidade de alunos na sala de aula. Sentimos que esses professores já eram ‘naturalmente inclusivos’, na suas salas de aula.”
Ficam as dúvidas nossas e dos autores, acerca da insistência geral de que é necessário uma preparação intensiva dos professores antes da inclusão ser introduzida. Não estaremos subestimando as habilidades e a experiência de muitos professores que, como em outras paragens, já seriam também inclusivos por aqui? Os programas de capacitação não deveriam ser construídos sobre as competências que já existem em muitas salas de aulas de nossas escolas ? Vamos abrir nossos corações, como muitos desses professores de boa-vontade já abriram os seus? Vamos abri-los, juntamente com nossos corações para receber toda e qualquer criança com NEE na Escola e lutar para que elas permaneçam o maior tempo por lá, ainda que não obtenham o ‘ tão importante diploma’ !?

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

A Amizade como geradora de Competência Social



Gladis Maia

Os três melhores amigos de Jaime disseram:
1º - Ele faz com que eu me sinta bem quando estou triste, e quando fico furioso ele me acalma. Eu ajudei Jaime a correr 7 min. 15 seg. em uma corrida e jamais vou me esquecer disso.
2º -
Percebi que ele podia se adaptar com qualquer um na escola, que ele queria ter amigos, e ele é meu amigo. Ser amigo de Jaime tem suas vantagens. Ele é muito amável, atencioso, bom, educado e é o meu preferido – é um garoto ‘legal’ .
3º- Aprendi como deve ser um amigo de verdade. Ele é realmente um bom amigo. Aprendi que um amigo tem que ser bom, e aprendi isso com Jaim.
Já Jaime referiu-se aos amigos assim:
Eu tenho três amigos: Zach, José e Mark. um.dois.três.Eu gosto dos meus amigos. Gosto de implicar, correr e brincar com eles.
Bishop & Jubala in Jaime Will have a friend.

Segundo Staiback & Staiback, em “Inclusão, um Guia para Educadores”, as amizades servem para aumentar uma variedade de habilidades comunicativas, para proporcionar às crianças proteção, apoio e uma sensação de bem-estar. As amizades para as crianças com deficiência – apesar da freqüência com que os educadores e o pessoal de apoio negligenciam seu desenvolvimento, em favor do desenvolvimento de habilidades funcionais e acadêmicas – podem até ser mais importantes do que para as outras crianças. Isto devido a maior necessidade que elas têm de trabalharem seu desenvolvimento: lingüístico, cognitivo, social, sexual e acadêmico.
Embora as amizades não possam ser forçadas, seu desenvolvimento pode ser encorajado, alimentado e facilitado na escola e na comunidade. Uma variável fundamental no estabelecimento das amizades físicas é a proximidade física. Se as crianças deficientes
freqüentarem os mesmos ônibus escolares, os grupos da igreja, os programas esportivos, os recreativos,as lancherias ... Na escola do bairro teriam mais chances de criarem um elo de amizade importante, contribuindo maciçamente ao desenvolvimento de ambas as crianças.
Outro fator determinante da formação da amizade são as estratégias de classe com atitudes colaborativas entre alunos deficientes no contexto das atividades acadêmicas, físicas e sociais .
Além do trabalho compartilhado as atividades no almoço, recreio, as lições de casa em grupo, a própria disposição das carteiras nas salas de aula, que não devem ser individuais, mas em duplas, círculos.
Todos esses incentivos para as relações amigáveis no seio da escola e da comunidade contribuem de maneira significativa, não somente para a auto-estima do aluno com deficiência, mas também para conquistar o respeito de seu colegas. Mais próximos os alunos - deficientes ou não - passam a perceber as potencialidades e habilidades inerentes a um e a outro.
Embora pais e professores não possam escolher os amigos de seus filhos e alunos, podem observar as interações e alimentar as possibilidades que elas apresentam. A experiência da amizade pode ser estendida a todos em uma escola, em um bairro e em uma comunidade inteira, quando as pessoas trabalham juntas para criar oportunidades de entendimento de apoio e de aceitação dos outros como eles são e do que estão dispostos a dar e a receber.
Os alunos com e sem deficiência podem beneficiar-se da aprendizagem de habilidades específicas que podem melhorar a performance do desenvolvimento das amizades e das interações sociais. Podemos, por exemplo, começar ensinando-os a serem bons ouvintes, ativos, a darem um retorno positivo, a fazer perguntas e a responder às necessidades dos outros. Isto pode contribuir para a maior aceitação dos colegas.
Aprender a compartilhar os pertences, as idéias e os sentimentos, proporcionar conforto, ajuda e apoio são também componentes de amizade. Em alunos jovens a confiabilidade e a lealdade são muitas vezes testadas e as lealdades mudam constantemente. Ensinar a volorizarem-se
e apreciarem seu próprio caráter – pode ajudar no momento que se sentirem “traídos” ou propensos a”traírem”.
As interações que ocorrem durante um conflito entre alunos proporciona, uma maneira segura para expor queixas, sentimentos e diferenças de opinião, além de habituá-los para a vida em comunidade.
Bishop & Jubala -
citados por Staimbac & Staimback e outros – descrevem um trabalho realizado numa 6ª série (incluindo um aluno com deficiências importantes) na qual foi desenvolvida uma unidade sobre amizade). Um dos resultados foram as singelas e ao mesmo tempo veementes opiniões dos alunos sobre o que é para eles o sentimento da Amizade, num texto compilado por mim:
Na minha opinião, neste mundo de hoje, a maioria das pessoas precisa de pelo menos um amigo para conseguir sobreviver, porque uma amizade é a melhor coisa que se pode conseguir em toda a vida. Ser amigo é se encontrar um com o outro na escola ou em casa, ser ‘legal’ um com o outro e de vez em quando brigar, mas principalmente sermos amigos e ajudar um ao outro, quando precisar. Ser amigo significa ter uma pessoa que tem consideração e interesse por mim. Alguém que tenha os mesmos interesses e também interesses diferentes dos meus. Para ser um amigo de verdade, a gente tem de desenvolver um relacionamento duradouro e não agir mal com ele. Significa que a pessoas estão ao seu lado quando você precisar delas, estão aí para nos animar quando estamos tristes. Acho que amizade é se divertir junto e conversar sobre nossos problemas. Amizade é ir aos lugares juntos. Acho que amizade é compartilhar nossas coisas e os lugares divertidos em que estivemos.” E você, leitor(a) já teve um amigo assim? Se tem, que bom, se não, ainda há tempo para consegui-lo!

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Crianças Especiais precisam ter direito à inclusão na Ed. Infantil




Gladis Maia

Há de se cuidar do broto para que a vida nos dê flores e frutos. Milton Nascimento.

Todas as crianças são muito especiais, mas algumas delas precisam de um apoio, de um olhar, de um saber diferenciado do adulto. Como ela não possui todos os instrumentos necessários para o processo de aprendizagem, que gere um desenvolvimento normal, a sua interação com as pessoas com quem convive fica prejudicada. É necessário estimulá-la para que supere os obstáculos a enfrentar a toda hora. É necessário também uma grande sensibilidade para saber como ajudá-la na medida justa, e não mais do que isto, para que a criança experimente a sensação insubstituível de vitória pessoal. A ajuda excessiva fará com que sua independência seja retardada. A identificação precoce de uma deficiência em uma criança, por menor que seja, e seu imediato encaminhamento a um especialista, pode fazer uma enorme diferença, que mudará decisivamente o futuro desta criança.
A pergunta crucial é: como incluir essas crianças no grupo sem que elas se sintam marginalizadas?O ambiente em que o portador de deficiência vai ser recebido é um fator muito importante. A escola infantil deve ser próxima de sua residência, facilitando o acesso e oferecendo maiores oportunidades de contato com as crianças da vizinhança de sua comunidade. A escola deve contar com uma equipe de educadores acolhedores e receptivos à idéia da inclusão. Deve estar aberta ao diálogo com a família e com os profissionais especializados que fazem o acompanhamento dessas crianças. Todas as barreiras do ambiente físico também precisam ser eliminadas, para oportunizar espaço e segurança para todas as crianças.
O sucesso da inclusão vai depender muito da compreensão, da empatia, dos conhecimentos, da flexibilidade e da disposição em aprender das pessoas que recebem essas crianças com necessidades especiais. Muitas vezes a falta de informação, aliada ao preconceito que têm raízes profundas, que faz com que as pessoas as rejeitem ou se sintam inseguras em relação a elas. Entrar em contato com uma criança portadora de deficiência também pode trazer à tona sentimentos de piedade, de superproteção e até de culpa, devido ao trabalho extra que ela pode representar e à sensação de que não se está respondendo às suas solicitações, na medida em que ela necessita.
Questões como o excesso de crianças em uma turma, o acúmulo
de tarefas da professora, o planejamento dirigido à maioria das crianças, as diferentes demandas dos serviços de orientação, supervisão e administração, muitas vezes tornam a professora cética, quanto às possibilidades de adaptação desta criança especial. Dar-se conta destes sentimentos é um grande desafio, tão grande quanto procurar as soluções que garantam o bem-estar de todas as crianças, assegurando aos educadores de que estão agindo de forma consciente e correta em relação a elas.
A atitude da direção da Escola é um fator essencial para a inclusão do portador de deficiência ao ambiente da escola. Uma diretora que seja sensível ao problema e que tenha um bom relacionamento com toda a sua equipe de educadores, que tenha um bom diálogo com a família e com a professora especializada, favorecerá o trabalho de integração. Sua atitude sempre contagia toda a equipe, o sucesso de experiências já realizadas dita isto.
Um relacionamento próximo com os profissionais especializados dará elementos à equipe técnica de orientação pedagógica para identificar possíveis problemas que estejam ocorrendo com a criança especial. Esta colaboração entre especialistas melhora sensivelmente a tarefa de encontrar soluções e recursos necessários para alcançar os objetivos comuns.
A professora que terá a criança deficiente em sua turma precisará de apoio constante, de avaliação periódica e de informação e troca de experiências para poder planejar adequadamente as suas atividades, além do envolvimento da direção, da equipe técnica e de todos os educadores no trabalho de integração. Esta criança necessita de um ensino que esteja baseado em vivências reais. Isto exige da professora um comportamento mais ativo, inovador e flexível. Ela precisa estar atenta não só as necessidades de todas as crianças não deficientes, mas também às necessidades da criança portadora de deficiência.
Esta atitude certamente beneficiará também as crianças “normais”, que serão igualmente estimuladas a utilizar todos os seus sentidos. Inúmeros estudos e pesquisas comprovam que o convívio entre crianças com deficiência e as outras crianças é saudável para ambos os lados, pois a criança deficiente precisa sentir-se aceita para superar suas dificuldades e a criança não deficiente aprenderá desde cedo a aceitar as diferenças que existem entre as pessoas.
As crianças são de maneira geral mais receptivas às diferenças, mais sinceras e solidárias, infelizmente, muitas vezes, o preconceito é passado dos adultos para elas. As crianças devem ser preparadas para receber os coleguinhas especiais. Algumas delas gostarão de experimentar, tentando realizar tarefas como se fossem portadoras de alguma deficiência, como usar cadeira de rodas, ter os olhos vendados ou os ouvidos tapados. Se este procedimento partir da criança, não só será válido, como inclusivo. Voltaremos ao assunto!

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Se o mundo acordar para a Inclusão aí então teremos muitas esperanças.

Gladis Maia
Educação não é uma fórmula de escola, mas sim uma obra de vida. reinet
Quem assiste aos telejornais com freqüência, por menos sensível e impressionável que seja, deve perguntar-se se a sociedade está podre... Se ainda há esperança para os homens de bem, os homens honestos, os homens solidários, os homens éticos... Essa avalanche de corrupção entre os políticos e suas quadrilhas, formadas por empresários e funcionários públicos de mau-caráter, que felizmente começam a ser desbaratadas em nosso país, a violência que assola a sociedade em forma de exploração sexual de menores, de trabalho infantil e trabalho escravo, de analfabetismo literal e funcional, que prolifera ao invés de ser erradicado, e tantas outras mazelas, tais como sem teto, sem terra, faz dos cidadãos preocupados, com os destinos da humanidade, seres mais tristes.
Esse desfilar de desrespeitos a Deus, à Vida, em todos os seus liames, de destruição da raça humana e do planeta, colorida e musicalmente em flashes e mais flashes, representativos dessa psicotizante realidade a nos corroer, tal qual raios que vão se infiltrando em nossos corações, doloridamente, vão nos tornando, com o passar do tempo, cada vez menos confiantes de que um dia a plena luz da sabedoria, da harmonia e do querer bem passe a prevalecer em nossos gestos, em nossos pensamentos e atos, tornando-nos gentis e amorosos.
A hora já tarda, não percamos tempo, unamo-nos para levantar nossas vozes – nos lares, nas igrejas de qualquer credo, nos bairros, nas ruas, nas cidades, nas escolas, no trabalho, nos clubes, deste enorme país continental, na vida, em qualquer lugar, num grito de basta a essa trágica miséria, espiritual e física, mesmo que nos taxem de denuncistas sensacionalistas. Ergamo-nos para exigir respeito, moralidade e ética no trato com os semelhantes e com a coisa pública! Não podemos arrefecer pensando que sempre foi assim e assim será ... Derrotismo, nunca! Vivamos como seres espirituais e divinos que somos, sem nos auto-destruir, sem agredir ao próximo, com a incredulidade, com a malícia - com a maldade, roubando de quem nada tem para locupletar-se - com a falta de reconhecimento de que todo ser humano merece viver com dignidade, numa Sociedade Inclusiva, que respeite a todos os seus direitos.
E na luta maior, diante dessa conjuntura, a esperança mais verdejante que insiste em florescer – e felizmente assim o é, e Deus queira que assim o seja, para sempre – cabe como uma luva sob medida na mão de cada professor que se enquadrar entre os Homens de Boa Vontade. Precisamos acreditar que reverter essa triste situação é possível, se soubermos educar nossos alunos contra: a corrupção, a maldade, a mentira, a infâmia, a desonestidade, afinal eles estão nas escolas desde o zero ano de existência, seus pais muito pouco - ou nada mais - influem, somos as pessoas que passamos a maior parte do tempo com eles...
Como fazê-lo? Na Escola Inclusiva, cujo princípio fundamental, segundo a Declaração de Salamanca (UNESCO 1994), consiste em que todas as pessoas devem aprender juntas, onde quer que isto seja possível, não importando quais dificuldades ou diferenças que elas possam ter. Essas escolas precisam reconhecer e responder às necessidades diversificadas de seus alunos, acomodando os diferentes estilos e ritmos de aprendizagem e assegurando uma educação de qualidade para todos, mediante currículos apropriados, mudanças organizacionais, estratégias de ensino e uso de recursos e parcerias com suas comunidades, porque, toda pessoa tem o direito fundamental à Educação e a ela deve ser dada a oportunidade de atingir e manter um nível aceitável de aprendizagem.
E é nesse sentido que os sistemas educacionais devem ser projetados e os programas educativos implementados, de tal forma que considerem a ampla diversidade dessas características e necessidades. Pois, ao contrário do que muitos pensam, a Educação Inclusiva não se caracteriza apenas pelo ingresso de alunos com deficiência na escola regular, bem como não são somente estes alunos que são portadores de NEE, todo estudante, num momento específico qualquer de sua aprendizagem, pode necessitar de um apoio, se não cognitivo, em nível social, emocional, psíquico, afetivo, cultural, etc.
Um relatório da ONU aponta muitos benefícios na Educação Inclusiva, tanto para os estudantes com deficiência, como para os ditos normais. Aqueles: aprendem a gostar da diversidade; demonstram crescente responsabilidade e melhor aprendizagem através do trabalho em grupo, com outros deficientes ou não; ficam melhor preparados para a vida adulta em uma sociedade diversificada: entendem que são diferentes, mas não inferiores; aprendem a gostar da diversidade. Esses, passam a ter acesso a uma gama bem mais ampla de papéis sociais; são melhor preparados para a vida adulta, porque desde cedo assimilam que as pessoas, as famílias e os espaços sociais não são homogêneos e que as diferenças são enriquecedoras para o ser humano; adquirem experiência direta com a variedade das capacidades humanas; perdem o medo e o preconceito em relação ao diferente; desenvolvem a cooperação e a tolerância; adquirem grande senso de responsabilidade e melhoram o rendimento escolar. E, fatalmente, tornar-se-ão mais humanos, cooperativos e solidários.Tenho muita fé na mudança! Com certeza há luz no fim do túnel e a chama está nas mãos do professor.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Escola Viva, um espaço de criação em São Paulo, destinado à incluir.

Gladis Maia
Encontrei uma classe extremamente heterogênea: alunos de comportamento passivo, alunos extremamente agitados, alunos bons, alunos que liam e não escreviam, alunos que não liam e que não escreviam e, entre eles os que se recusavam a ler, escrever, a fazer qualquer atividade proposta. Alguns se rastejavam pela sala, alunos que escutavam errado sem ter problemas auditivos. Darcy, professora.
A Escola de Ensino Fundamental Gal. Osório, Vila Califórnia, foi a primeira escola inclusiva da Prefeitura de São Paulo. O processo iniciou-se em 1997, por iniciativa de Arlete Persoli, diretora à época e sob a orientação da prof. dra. Leny Magalhães Mrech, cujo trabalho – durante o período de 4 anos - passou a constituir o estudo de caso que documentou sua tese de livre docência, na USP. Eram então 689 alunos, 27 com NEE, sendo assim distribuídos: deficiência mental, 5; deficiência auditiva,1; distúrbios emocionais, 2; deficiência física, 2; e 16 distúrbios de aprendizagem.
O processo iniciou-se logo após o 1º projeto Escola Viva da PMSP, quando mais de 170 escolas, professores das salas de SAPNE, Salas de Apoio aos Portadores de Necessidades Educativas Especiais e SAP, Salas de Apoio Pedagógico aos alunos com distúrbios de aprendizagem, das antigas EMEDAS, Escolas Municipais para o Atendimento dos Deficientes Auditivos e coordenadores pedagógicos.
A direção e equipe técnica foram o grande elo de ligação entre a escola e a comunidade, exigindo um trabalho comprometido e cuidadoso com os participantes do projeto, envolvendo: acolhida, escuta, retorno dos conteúdos, síntese e principalmente a sustentação do desejo por um projeto de Educação Inclusiva e Psicanálise, cujos objetivos centrais giravam em torno de: ‘...um sonho por uma Educação melhor, por uma escola de qualidade, pela implantação do mesmo desejo nos alunos, pais, funcionários e comunidade,’nas palavras de Leny.
Nas reuniões de assessoria eram estudados conteúdos vinculados à Psicanálise e Educação Inclusiva, através de autores como Vygotsky, Wallon e Lacan. Em horários coletivos, os professores estudavam outros conteúdos sob a responsabilidade das Coordenadoras Pedagógicas. Nas entrevistas individuais os professores podiam colocar as dificuldades com os alunos, com os conteúdos a serem trabalhados, acompanhamento de estudos de casos, onde relatavam os avanços atingidos com cada aluno.
‘Procuramos ver o professor em sua singularidade, bem como fazer com que ele tecesse os caminhos que achasse necessário para sua participação dentro do projeto. Esta prática se estendue a todos os segmentos, incluindo alunos, funcionários e pais,” explica. Esta ampla conversação entre os participantes da escola foi realizada, segundo Leny, com a intenção de liberar a palavra que geralmente fica presa na escolas por medo de falar o que se pensa, o que se deseja, o que se necessita.
A Coordenadora Pedagógica da Escola relata que a indisciplina era um dos maiores entraves em sala de aula e que os alunos indisciplinados eram excluídos da mesma e o índice de repetência era muito alto, pois a forma de avaliar o aluno não levava em conta o seu progresso e o processo de aprendizagem. A resistência dos professores no início foi muito forte por parte de todos, já que os primeiros textos e palestras apresentados traziam uma reflexão para os problemas que a escola enfrentava e a prática pedagógica de cada um, prática que não estava dando conta das dificuldades apresentadas pelos alunos. Como refere Leny, é muito difícil para o professor aceitar que existem problemas na escola, na sua situação, e que é preciso mudar: ‘Os educadores, diferentemente dos psicólogos e psicanalistas, não estão acostumados com a supervisão do seu trabalho, o que faz com eles sintam uma dificuldade maior em refletir a respeito da sua prática. Este é um problema que os pedagogos institucionais já haviam identificado há muito tempo’. Ela salienta que: 'Se não fosse banal, poderia julgar-se espantosa esta atitude dos professores que fazem ponto de honra na negação da existência dos conflitos na sua sala de aula.'
Essa coluna não é suficiente para resumir o que foi a implantação da inclusão na General Osório, com sua inúmeras parcerias que se estabeleceram com a comunidade, indo desde a associação de instituições como a igreja, hospital, passando pelo de trabalho voluntário.O ponto alto a ser destacado foi o clima de cordialidade que se estabeleceu na escola, o grupo docente ficou bem mais amigo, trocando experiências e materiais, uns querendo ajudar aos outros, um verdadeiro entrosamento entre alunos, professores, direção, coordenação, funcionários, pais. A inclusão resgatou o valor da solidariedade e da cooperação.
Foram muitos os depoimentos comoventes colhidos por Leny, dos quais selecionei alguns. O primeiro é da mesma professora que assina a epígrafe, Darcy: ‘ A aluna Franciele, 13 anos, não conseguia dar opinião alguma a respeito de um pequeno texto trabalhado em classe, pois lia e não entendia nada. Sentamos juntas e, na lousa, coloquei outro texto com apenas oito linhas curtas. Fiz com que ela lesse palavra por palavra até formar a frase, muitas vezes. Fiquei uma aula inteira para que ela pudesse ler e entender. De repente ela me disse: ‘Ah! Professora, é isso? Então eu já sei’. Havia nela um sorriso de felicidade e de confiança em si. Foi a descoberta da leitura e da escrita para ela. Hoje ela escreve pequenas histórias.'
Já a professora Zuleica diz: ‘Muitas vezes questionei como poderia trabalhar cada aluno, se as classes eram lotadas e eu nem conseguia saber o nome de cada um. Porém, aos poucos, fui percebendo a importância de trabalhar individualmente com cada aluno. Depois de muita reflexão e de rever minha prática pedagógica, para experimentar o que havia aprendido, por sugestão da profa. Leny, criei um projeto ‘Arte na Escola’. São oficinas de arte, montadas com a ajuda de profissionais da escola e da comunidade, que tenham habilidades. O público é muito diversificado, desde crianças com distúrbios emocionais graves a funcionários, professores e pais da comunidade. Tenho aprendido e estudado bastante. O bom das oficinas é que mudamos os papéis constantemente, ora sou professora, ora sou aluna. Em muitas situações,quando me vi ‘atrapalhada’ para realizar algum trabalho, tive a ajuda espontânea dos alunos. Neste contexto , entendi que um professor não tem que saber tudo, mas tem que ter a responsabilidade de estar questionando a sua prática e o seu saber.’ Adorei tomar conhecimento desta pesquisa!Se você também gostou e quiser ler o texto na íntegra, pode encontrá-lo no endereço:
http://www.educacaonline.pro.br/o_projeto_escola_viva.asp

domingo, 30 de setembro de 2007

O papel dos pais no tratamento dado na sociedade ao seu filho deficiente

Gladis Maia

Bem-vindo ao mundo das deficiências onde os documentos reinam e o negativismo, o pessimismo e a resistência à mudança transpiram em cada página. (...) O negativismo é sintomático de uma sociedade competitiva que idolatra os vencedores e evita os perdedores. Este preconceito faz com que a sociedade e os próprios pais encarem a deficiência não como uma característica pessoal neutra, mas como uma qualidade negativa definidora que requer segredo, defensivas e vergonhas. Sommerstein & Wessels, in Inclusão, um guia para educadores.

Segundo os autores da epígrafe, os pais que lutam para proteger seus filhos dos outros, através do silêncio, precisam interromper o ciclo de ignorância da sociedade, assumindo um risco e compartilhando seus filhos com os demais. Devem permitir aos outros o acesso às informações a respeito deles, para que possam participar um pouco dos dons e das realizações de seus filhos. Ter um filho com deficiência não tem que necessariamente tornar-se uma tragédia. É claro que é um desafio - em muitas situações inclusive torna-se uma inconveniência e, é sempre uma preocupação - mas não é uma tragédia.
Agindo desta forma, coibiriam o comportamento de uma sociedade que em geral sente pena de uma pessoa com deficiência, que acha que seus pais são uns santos e não sabem como eles conseguem lidar com isso. Sommerstein e Wessels pensam que os pais têm a obrigação de compartilhar os dons e as carências de seu filhos com seus familiares, com os amigos, com os conhecidos, os membros da comunidade, os empregados, supervisores, funcionários - desde a mercearia aos médicos, enfermeiras, recepcionistas, caixas de banco, motoristas de ônibus e policiais, entre outros.
Como fazer isso? Através de conversas casuais, em debates e até com apresentações formais. “Não espere que as pessoas reconheçam as realizações de seus filhos – conte a eles! Não espere que as pessoas saibam do que seu filho precisa – conte a eles! Não espere que as pessoas saibam quem seu filho realmente é – conte a eles! Poucos guardam para si as homenagens e as realizações de seus filhos, e não é natural que o façam. Precisamos desenvolver nossa consciência de que as realizações das crianças com deficiências, não importa em que nível, devem ser valorizadas, celebradas e homenageadas”, explicam.
Com esse desabafo amoroso os autores pretendem convencer as famílias dos deficientes a mostrarem as suas potencialidades e os seus sucessos, para que as pessoas não precisem sentir pena deles. A informação a ser compartilhada é apenas informação, não são julgamentos, por isso os defensores da Inclusão sonham com o dia em que todas as crianças estudem juntas em salas de aulas de educação regular, o que oportunizará uma transformação na sociedade, que se processará com uma certa lentidão, mas no rumo certo. Quando todos tiverem informações sobre todas as deficiências - e a inclusão vai oportunizar isso – os normais serão, na melhor das hipóteses superficialmente amigáveis ou neutros, em relação a elas, e – na pior das hipóteses – insensíveis e cruéis.
Sommerstein e Wessels concordam com os críticos da ‘consciência da deficiência’, num aspecto: quanto ao conteúdo das informações e a maneira como são passadas, acabam muitas vezes reforçando os estereótipos negativos de pessoas com deficiências. Na tentativa de corrigir estas distorções, apresentam algumas diretrizes estratégicas para compartilhar as informações saudavelmente. Por exemplo: seria errado compartilhar informações sem o consentimento da pessoa e da família envolvidos. As informações devem ser específicas da pessoa que está em discussão, evitando-se generalizações e concepções equivocadas. O uso de uma linguagem respeitosa é essencial, evitando retratar a pessoa como uma vítima ou uma sofredora.Usar uma abordagem baseada nas suas potencialidades, mostrar que a deficiência é apenas uma pequena parte da pessoa. Falar de suas habilidades, interesses, ao invés de déficits. Reduzir os rótulos médicos e técnicos.
Prescrever em vez de descrever, ou seja, as informações devem concentrar-se naquilo que a pessoa precisa para ser bem sucedida. Uma pessoa verbal pode fazer a apresentação sozinha, outro indivíduo pode optar por folhetos, outro por cartas com ícones, se a pessoa optar por não estar presente o informante deve esclarecer e deixar claro que a pessoa endossa o que está sendo dito. O tom do compartilhamento das informações deve ser leve, o humor ajuda, as perguntas devem ser estimuladas e as fontes de apoio e informações devem ser identificadas.
Infelizmente, há alguns pais - ou as próprias pessoas com deficiências - que não podem ou não querem compartilhar informações por problemas de cultura, capacidade ou de oportunidade. Quanto mais invisível a deficiência, maior a relutância em compartilhá-la. Ao que os autores contrapõem: “os pais que podem, devem fazê-lo; os que não podem, devem apoiar os que pode . Toda essa consciência vai tornar-se necessária quando as pessoas com deficiência não forem mais estigmatizadas. A desestigmatização começa com as percepções que as famílias e as pessoas com deficiência têm de si mesmas”. Não tem de ser assim. A natureza estigmatizante desse negativismo tem evitado que as crianças com deficiência sejam bem-recebidas nas escolas do seu bairro, contribuindo assim para a negação de sua cidadania plena nas comunidades.